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O que não pode ficar além do tempo

Uma reviravolta na trama e a pergunta: não havia mais escravidão em 1865?

alem_do_tempo

Desde a publicação em 1986 da dissertação de mestrado de Ondina Fachel Leal, “A leitura social da novela das 8″, nós antropólogos não precisamos inventar desculpas por dedicar algumas horas do dia aos dramalhões e pastelões do horário nobre. Ainda que alguns de nós ainda insistam em dizer que só sabem algo “dessa novela que tá passando” porque passaram pela cozinha justo naquele horário, eu assumo: sempre gostei, assisti e falei de novela. Eu poderia dizer que é um importante campo de observação de como temas bastante caros a nossos estudos (gênero, sexualidade, família, modas, política) são colocados nesse contexto da mídia, um nebuloso emaranhado em que se confundem gostos populares, agências publicitárias, agenciamentos artísticos, entre outras intensidades. Mas o fato é que eu gosto mesmo.

Mas esse olhar não se exclui, ainda que a ficha demore a cair. Pois é o que aconteceu. Nessa semana, a novela que se passa no horário das 6 teve uma reviravolta em sua narrativa, em que seus personagens centrais ressurgem 150 anos depois, reencarnados em outras vidas (apesar de curiosamente manterem os mesmos nomes), repetindo ou não laços de parentesco daquele passado. Assim, personagens que eram patrão e empregado ressurgem como irmãos, cunhadas. Uma parte renasce no Rio de Janeiro outra se mantém na fictícia cidade de Bela Rosa, na mesma região gaúcha onde havia se desenrolado integralmente a primeira fase. Tratam-se de cidades localizadas próximas ao Parque Aparados da Serra, na divisa entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, a região serrana produtora de uvas e vinhos, economia que também faz a trama girar.

Mas quando nos damos conta de que se passaram 150 anos e que os personagens estão agora em 2015, chegamos então à conclusão de que antes a novela se passava em 1865. Vejamos: em 1865 não havia escravidão no Rio Grande do Sul? Não sou pesquisador do tema, mas parece grosseira o apagamento da escravidão se pensarmos que esse mesmo horário das 6 já foi palco de inúmeras obras – muitas delas em pleno regime ditatorial – que nunca ousaram falar do século XIX sem se referir à escravidão. Muitos dirão se tratar apenas de ficção, de uma licença poético-histórica de sua autora, Elizabeth Jhin, considerada uma das autoras mais criativas que apareceram nos últimos tempos, com novelas sobre espiritismo ou que levam a trama para além da racionalidade mais rasteira.

Mas acho que não é sobre isso que se trata essa ausência ou esse apagamento histórico. Quem assistia a primeira fase poderia pensar que se tratava no período de virada entre os séculos XIX e XX, logo posterior à abolição e à proclamação da República, uma vez que apresentava personagens que pareciam viver na saudade de um tempo das cortes que já não existiriam nesse período. Mas em 1865, o Império ainda se mantinha, e isso não fica evidenciado em nenhum momento. Além dos títulos de nobreza, conde e condessa, frequentemente utilizados, nenhuma outra referência ao Brasil Imperial.

Além disso, todos os empregados dos casarões ou são personagens supostamente de descendência italiana (apesar de não haver sotaque, há os nomes típicos como Gema, Anita) ou de origem negra, porém livres, sem que sua condição de ex-escravos ou descendentes de escravos seja alguma vez citada. Apenas quando dois personagens passam a ter uma relação amorosa inter-racial que vem à tona o tema do racismo, mas sem tocar na escravidão diretamente. “Pensa que um negro vai poder se deitar com uma branca e vai ficar por isso mesmo?”, diz o delegado enquanto prende o homem que teria agredido fisicamente um branco, filho da mulher com quem ele tem um relacionamento. Não fica claro se o homem está sendo preso porque bateu num branco ou porque estava se relacionando com uma mulher branca, ou se mesmo pela “arrogância” de ser um “negro liberto”.

De qualquer forma, incomoda essa ausência. Ainda mais se contextualizarmos essa trama em termos de sua exibição, no ano de 2015, um dos anos mais tristes – ou o primeiro de uma era ainda mais sinistra – em termos de opinião pública, debates políticos e discussões cada vez mais pobres sobre direitos humanos, exclusões, em que até mesmo a história recente chega a ser alvo de dúvidas. Se já há aqueles que estão relativizando a ditadura militar brasileira, não será estranho vermos fatos outros como escravidão, holocausto, a história das repressões à diversidade de gênero e sexualidade  e às minorias étnicas serem também alvo de revisões retrógradas e marcadas politicamente pelo pensamento tosco e sinistro dessa opinião pública.

A arte tem muitas licenças e limitar ou direcionar os discursos artísticos nunca será, não pode ser, uma alternativa desejável. Queria apenas nesse texto/desabafo situar esse simples recurso estilístico de uma novela das 6 como inspirador de discussões sobre os tempos obtusos atuais, em que não sabemos o que vem por aí, em que o retrocesso bate à nossa porta, em que anos e anos de lutas dos movimentos sociais pós-60 correm o risco de sumir nas trevas de uma religiosidade tacanha que ameaça o estado laico. Ainda que se trate de uma peça artística que quer apenas pensar o quanto ódios, invejas, ambições, amores e afetos outros podem resistir “além do tempo”, os séculos de escravidão que nos marcam a todos não pode ficar de fora. Não hoje.