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Carnaval e audiovisual: é preciso ir além dos estereótipos

Artigo publicado na revista SESC TV, de fevereiro de 2017

A relação entre carnaval e audiovisual oferece algumas sescpossibilidades interessantes de reflexão. A começar pelos elementos da experiência carnavalesca que são, principalmente mas não apenas, audiovisuais, ou seja, som e imagem lhe dão forma e conteúdo. Ninguém apenas ouve carnaval ou vê carnaval – exceto as pessoas com restrições de audição ou visão, obviamente, cuja experiência com o carnaval deve guardar certas peculiaridades. Mas, em geral, é a junção dos aspectos visuais de fantasias, alegorias e corporalidades com os aspectos sonoros do samba, do frevo, do coco, do maracatu e das marchinhas – e a lista de gêneros poderia ser ampliada caso incluíssemos carnavais de outros países – que produzem uma experiência multissensorial.

Dito isto, é importante ressaltar o quanto esses aspectos audiovisuais do carnaval fazem dele – em todas as suas vertentes – uma das festas populares mais representadas nas produções audiovisuais brasileiras. Seja nos filmes, nos documentários, nas telenovelas ou nas transmissões anuais da televisão, o carnaval se mostra como uma festa representável e capaz de atrair milhares de espectadores em praticamente toda a história do audiovisual brasileiro. No cinema, é impossível não citar que, já nas primeiras décadas, o carnaval esteve em Favela dos meus amores (direção de Humberto Mauro, 1935) que tem a presença da Portela em sua narrativa. Ou em Alô, alô carnaval (direção de Adhemar Gonzaga, 1936) que contou com Carmem Miranda, um ícone desse cinema e das machinhas de carnaval dos anos 30. Foi um destaque central das chanchadas da Atlântida, como em Carnaval Atlântida (direção de José Carlos Burle, 1952) e outros que traziam cantores e marchinhas que se tornariam sucesso nas ruas e rádios. Ou ainda no precursor do Cinema Novo, Rio 40 graus (direção de Nelson Pereira dos Santos, 1955) que apresenta um ensaio da Unidos do Cabuçu sendo visitada por integrantes da Portela, em suas muitas visões sobre o Rio de Janeiro.

A lista é imensa e ainda conta com as duas versões da peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes – Orfeu Negro, dirigido por Marcel Camus em 1959, e Orfeu, dirigido por Cacá Diegues em 1999, filme que teve cenas gravadas na Sapucaí, durante o desfile da Unidos do Viradouro. Além disso, desde os anos 70, o cinema documentário também tem produzido pérolas sobre o carnaval, sempre dando destaque às festas mais tradicionais, os personagens de maior destaque nas agremiações carnavalescas ou até mesmo mostrando os passos da produção desses desfiles que se espraiam pelas ruas da cidade levando o nome de suas comunidades. Alguns desses títulos imperdíveis estarão em breve na programação da SESC TV.

Mas sobre todas essas representações, cabe refletir o quanto muitas vezes elas possuem seus limites ou até mesmo estereótipos que não fazem jus à diversidade do carnaval brasileiro. Em alguns filmes, documentários e telenovelas, essas festas geralmente são capturadas a partir do ponto de vista de sua tradição, com pouco destaque aos aspectos dinâmicos e contemporâneos dessas festas. Há exceções, até mesmo em telenovelas como Senhora do Destino (2004), Duas caras (2007) e Império (2014), todas escritas por Agnaldo Silva e incluíram em suas narrativas escolas de samba fictícias que tinham parte importante nas tramas. Exceções também podem ser vistas nesses documentários que, ao mostrarem os passos de desenvolvimento dos desfiles apontam as muitas formas de resistência presentes no carnaval brasileiro, seja dos moradores das favelas marginalizados que mostram suas artes musicais e plásticas num espaço privilegiado da cidade, seja dos trabalhadores rurais do maracatu, seja dos participantes de blocos, escolas e grupos que lidam com as inovações da festa, seja nas críticas às desigualdades sociais que tais contextos podem ressaltar.

As transmissões ao vivo não fogem a certos estereótipos. Como nas falas de comentaristas sobre os corpos femininos em destaque ou aquelas sobre a idade das participantes da ala das baianas ou da velha guarda em textos que só buscam justificar que são tradicionais sem destacar o papel ativo desses sujeitos na produção atual das festas ou mesmo sem enfatizar o quanto essas festas são mais contemporâneas do que a continuação de um passado distante. Transformam em folclore uma cultura pulsante e sempre atual seja na sua estética ou em seus temas. Não é possível generalizar essa crítica pois os modelos de transmissão do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro não é o mesmo das de São Paulo, assim como difere da transmissão dos trios elétricos de Salvador ou dos afoxés como os Filhos de Ghandi. Dependendo de locutores e comentaristas, essa ênfase na tradição ou na contemporaneidade pode variar.

Mas o estereótipo de maior presença nas transmissões ou reportagens de TV sobre carnaval talvez seja aquele que divide o Brasil por tipos de festas. Assim, o carnaval das escolas de samba parece acontecer somente no Rio de Janeiro e em São Paulo; os trios elétricos ou os afoxés, exclusivos da Bahia; o maracatu e os blocos de frevo, em Olinda e Recife; o bumba-meu-boi em Manaus; e as festas de reggae em São Luís do Maranhão. Esse mosaico de festas geralmente é apresentado pelas principais emissoras de tevê, nos intervalos dos desfiles das escolas de samba que ocupam toda a programação de pelo menos quatro noites, em giros pelas capitais e grandes cidades brasileiras mais conhecidas por seus carnavais. Num desses giros, se costuma ouvir frases do tipo: “Em Manaus (ou São Luís) o ritmo é outro”, com uma sequência de imagens com desfiles de grupos de bumba-meu-boi no bumbódromo da cidade (ou de multidões ao som do reggae na capital maranhense). Nenhuma palavra para se referir ao sambódromo de Manaus ou à passarela do samba de São Luís que na mesma noite recebiam as escolas de samba de suas cidades, com sua inegável ligação com os desfiles de origem carioca. O mesmo acontece com cidades como Natal, Belém, Florianópolis, Vitória, Belo Horizonte, Cuiabá ou Porto Alegre, cujo mesmo carnaval de escolas de samba costuma ser negligenciado pelas transmissões em rede nacional das emissoras. O mesmo talvez possa ser dito dos maracatus e afoxés que desfilam pelo sudeste e no sul, além de outras festas que cruzam o país.

Nessa relação entre o audiovisual e carnaval, é preciso acrescentar que em relação às suas muitas vertentes elas podem ser conhecidas através de plataformas de vídeos como o YouTube onde pequenos filmes feitos por participantes ou por coletivos organizados, ou mesmo a gravação das transmissões feitas apenas para as emissoras de TV locais, trazem trechos dos desfiles e apresentações das mais variadas festas de carnaval no Brasil. Assim, a diversidade do carnaval brasileiro desafia o modelo das transmissões televisivas que poderia abranger festas que fogem desse estereótipo, o que já vem acontecendo com a transmissão em rede nacional do carnaval de Vitória e talvez aconteça em 2017 com os desfiles de Florianópolis – as duas cidades disputam facilmente o título de “terceiro melhor” desfile de escolas de samba do país, na ótica de seus realizadores. Ainda assim, parece que são as plataformas de filmes e vídeos da internet que podem colocar ainda mais em evidência essa pluralidade, mas já é tema para outro artigo.

Marcos Aurélio da Silva é doutor em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e graduado em Comunicação Social pela mesma universidade. Atualmente é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso, atuando nas áreas de Antropologia Urbana, do Cinema, do Gênero e da Performance.

O que não pode ficar além do tempo

Uma reviravolta na trama e a pergunta: não havia mais escravidão em 1865?

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Desde a publicação em 1986 da dissertação de mestrado de Ondina Fachel Leal, “A leitura social da novela das 8″, nós antropólogos não precisamos inventar desculpas por dedicar algumas horas do dia aos dramalhões e pastelões do horário nobre. Ainda que alguns de nós ainda insistam em dizer que só sabem algo “dessa novela que tá passando” porque passaram pela cozinha justo naquele horário, eu assumo: sempre gostei, assisti e falei de novela. Eu poderia dizer que é um importante campo de observação de como temas bastante caros a nossos estudos (gênero, sexualidade, família, modas, política) são colocados nesse contexto da mídia, um nebuloso emaranhado em que se confundem gostos populares, agências publicitárias, agenciamentos artísticos, entre outras intensidades. Mas o fato é que eu gosto mesmo.

Mas esse olhar não se exclui, ainda que a ficha demore a cair. Pois é o que aconteceu. Nessa semana, a novela que se passa no horário das 6 teve uma reviravolta em sua narrativa, em que seus personagens centrais ressurgem 150 anos depois, reencarnados em outras vidas (apesar de curiosamente manterem os mesmos nomes), repetindo ou não laços de parentesco daquele passado. Assim, personagens que eram patrão e empregado ressurgem como irmãos, cunhadas. Uma parte renasce no Rio de Janeiro outra se mantém na fictícia cidade de Bela Rosa, na mesma região gaúcha onde havia se desenrolado integralmente a primeira fase. Tratam-se de cidades localizadas próximas ao Parque Aparados da Serra, na divisa entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, a região serrana produtora de uvas e vinhos, economia que também faz a trama girar.

Mas quando nos damos conta de que se passaram 150 anos e que os personagens estão agora em 2015, chegamos então à conclusão de que antes a novela se passava em 1865. Vejamos: em 1865 não havia escravidão no Rio Grande do Sul? Não sou pesquisador do tema, mas parece grosseira o apagamento da escravidão se pensarmos que esse mesmo horário das 6 já foi palco de inúmeras obras – muitas delas em pleno regime ditatorial – que nunca ousaram falar do século XIX sem se referir à escravidão. Muitos dirão se tratar apenas de ficção, de uma licença poético-histórica de sua autora, Elizabeth Jhin, considerada uma das autoras mais criativas que apareceram nos últimos tempos, com novelas sobre espiritismo ou que levam a trama para além da racionalidade mais rasteira.

Mas acho que não é sobre isso que se trata essa ausência ou esse apagamento histórico. Quem assistia a primeira fase poderia pensar que se tratava no período de virada entre os séculos XIX e XX, logo posterior à abolição e à proclamação da República, uma vez que apresentava personagens que pareciam viver na saudade de um tempo das cortes que já não existiriam nesse período. Mas em 1865, o Império ainda se mantinha, e isso não fica evidenciado em nenhum momento. Além dos títulos de nobreza, conde e condessa, frequentemente utilizados, nenhuma outra referência ao Brasil Imperial.

Além disso, todos os empregados dos casarões ou são personagens supostamente de descendência italiana (apesar de não haver sotaque, há os nomes típicos como Gema, Anita) ou de origem negra, porém livres, sem que sua condição de ex-escravos ou descendentes de escravos seja alguma vez citada. Apenas quando dois personagens passam a ter uma relação amorosa inter-racial que vem à tona o tema do racismo, mas sem tocar na escravidão diretamente. “Pensa que um negro vai poder se deitar com uma branca e vai ficar por isso mesmo?”, diz o delegado enquanto prende o homem que teria agredido fisicamente um branco, filho da mulher com quem ele tem um relacionamento. Não fica claro se o homem está sendo preso porque bateu num branco ou porque estava se relacionando com uma mulher branca, ou se mesmo pela “arrogância” de ser um “negro liberto”.

De qualquer forma, incomoda essa ausência. Ainda mais se contextualizarmos essa trama em termos de sua exibição, no ano de 2015, um dos anos mais tristes – ou o primeiro de uma era ainda mais sinistra – em termos de opinião pública, debates políticos e discussões cada vez mais pobres sobre direitos humanos, exclusões, em que até mesmo a história recente chega a ser alvo de dúvidas. Se já há aqueles que estão relativizando a ditadura militar brasileira, não será estranho vermos fatos outros como escravidão, holocausto, a história das repressões à diversidade de gênero e sexualidade  e às minorias étnicas serem também alvo de revisões retrógradas e marcadas politicamente pelo pensamento tosco e sinistro dessa opinião pública.

A arte tem muitas licenças e limitar ou direcionar os discursos artísticos nunca será, não pode ser, uma alternativa desejável. Queria apenas nesse texto/desabafo situar esse simples recurso estilístico de uma novela das 6 como inspirador de discussões sobre os tempos obtusos atuais, em que não sabemos o que vem por aí, em que o retrocesso bate à nossa porta, em que anos e anos de lutas dos movimentos sociais pós-60 correm o risco de sumir nas trevas de uma religiosidade tacanha que ameaça o estado laico. Ainda que se trate de uma peça artística que quer apenas pensar o quanto ódios, invejas, ambições, amores e afetos outros podem resistir “além do tempo”, os séculos de escravidão que nos marcam a todos não pode ficar de fora. Não hoje.