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Sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

A quem interessa manter a diferença? …sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

O FATO
O Globo repórter desta sexta-feira representou não apenas retrocesso: ainda falando da diferenças entre homens e mulheres, coisa que fizeram è exaustão nas últimas décadas. Quem acompanha deve ter percebido que, nos últimos anos, o programa reveza uns poucos assuntos como comida nutritiva, bichinhos da África ou da Amazônia, e sempre parece se encontrar uma forma de falar nas diferenças entre homens e mulheres.

Antes de nos questionarmos se existe alguma diferença mesmo, que vá além uma “suposta biologia”, seria interessante pensar a que servem ou para quem servem essas diferenças. Quem se preocupa em mostrar cientificamente que homens e mulheres não são iguais? Por que é preciso estressar as diferenças? A quem elas interessam? Ou melhor: a quem incomoda a semelhança?

HIPÓTESE 1
Eu devo estar maluco, nada disso deve ser verdade. Ou ao menos estou doido de estar em casa numa sexta-feira à noite, vendo Rede Globo… decadência. Tá, vamos ao que interessa.

HIPÓTESE 2
Já não se faz mais bom jornalismo na televisão aberta como antigamente. E agora ficou mais fácil chover no molhado, pois falam de algo que parece não precisar explicar pois explica-se por si só: homens são diferentes de mulheres e mulheres são diferentes de homens. Quem atesta? A psiquiatria, sim, a psiquiatria.

Mostre pelas ruas várias fotos de diferentes expressões de sentimento e saberá que os homens não conseguem identificar a maioria, ao contrário das mulheres, craques em sentimento. Uma novidade, não é mesmo?

HIPÓTESE 3
É impressão minha ou antes se dizia que a TPM atingia grande parte das mulheres, porém não todas. Agora é “a TPM das mulheres”, todas têm, nem adianta fugir. E todos os homens e família inteiras sofrem com isso, é… Um poço de descontrole hormonal foi a forma como as mulheres foram apresentadas, sem que nenhum depoimento dissesse algo ao contrário. Que direito se arrogam em dispor das pessoas…

HIPÓTESE NEGADA
Não, não pode ter nada a ver com o fato de, pela primeira vez na história brasileira, uma mulher ter condições reais de se tornar presidente da República. Não, seria demais, quase uma teoria conspiratória. Eles não podem ser tão baixos… espero.

HIPÓTESE 4
Antigamente, as ciências físicas e naturais faziam de tudo para se distinguirem de outras ciências ou do senso comum. Na verdade, a tevê fazia essa ponte, entre esses dois universos. Hoje, não precisa mais da tevê: senso comum e ciência falam a mesma língua. Vitória do senso comum, mas não de qualquer senso comum. Uma certa baixeza parece ancorar as atitudes de quem tudo justifica com a biologia, condenando as mulheres a sempre serem “vítimas da natureza”, de uma condenação da qual não podem fugir e que agora pode explicar tudo. Vítimas e culpadas, ao mesmo tempo.

Não, não existem maridos ruins. Não existem crianças enlouquecedoras de qualquer mãe. Não existe casamento tão opressor que justifique um “saco cheio” por mês. Não, as mulheres verdadeiras não sofrem disso, pois elas possuem “instinto materno” que deve servir como antídoto para toda essa hipocrisia, não é verdade? As que não possuem devem mesmo estar loucas, com hormônios descontrolados. Que aprendam com os homens, todos carinhosos, amáveis, dispostos a ajudar, preocupados com os filhos, não são ciumentos (ao contrário de todas elas, segundo o Globo Repórter), pois tiveram a sorte de não ter uma biologia que é maior do que a sua “força”.

Ao que parece, são as mulheres que são diferentes dos homens e não o contrário. Eles é que são o tipo ideal a ser seguido. Mas que elas não tentem se igualar, para não dar mais trabalho aos psiquiatras. Aonde buscarão mais diferenças?

HIPÓTESE 5
Apesar de se basear em ideias do senso comum, tanto o Globo Repórter quanto os psiquiatras parecem partir de um mundo em que já não dá mais para saber quem é homem ou mulher, como se estivessem indiferenciados e, pior, como se isso fosse um problema. Há alguns séculos atrás, é bem provável que homens e mulheres não vivessem abismos sociais tão gigantescos, o que muitas vezes não é problematizado nas ciências humanas. Existem imensas lacunas na história que fez com que as mulheres fossem colocadas como “sexo” diferente: precisamos deixar urgentemente de entender isso como natural ou como os fatos da reprodução fossem uma explicação aceitável.

HIPÓTESE 6
Homens e mulheres são idealizações que foram construídas de formas diferentes em diversos períodos da história e continuam sendo refeitas. Mas existe uma forma hegemônica que vem se fortalecendo desde o século XVIII que é o da mulher esposa, mãe, doméstica e homem, provedor e público. Foi nessa época que os médicos, sim sempre eles, desenvolveram toda umascientia sexualis (Michel Foucault, A História da Sexualidade) , criando a diferença entre sexos e sexualidades, o que foi fundamental para as políticas de criação dos Estados-nações do Ocidente.

Criou-se um rol gigantesco de “patologias sexuais”, que incluíam o “homossexualismo”, que foi impondo às massas populacionais com métodos coercitivos e policiais. Naquele momento interessou dizer que homens e mulheres eram diferentes e que tinham corpos diferentes (Thomas Laqueur, A invenção do sexo ). Até então as diferenças eram de grau e não de tipo. Justificou-se toda uma série de pesquisas e uma das “descobertas” fundamentais do período foi a existência de hormônios sexuais – o que inclusive permitiu que se criasse terapias com hormônios de animais para “corrigir” masculinidades e feminilidades desviantes.

Será que saímos desse caminho? Acho que não… Acredito que talvez nunca cheguemos a um dia em que essas diferenças não sejam importantes, em que as pessoas não vão ser carimbadas na testa com uma identidade sexual prévia que parece justificar tudo, sem deixar saída. Pois não nos enganemos em pensar que se trata de uma simples diferença, já que é a partir dela, da forma como ela se constrói como verdade científica, que uma série de exclusões não param de proliferar. A construção da “homossexualidade” é apenas uma delas.