Arquivo da tag: Gênero

O corpo na cidade: Festa, militância e os caminhos das políticas LGBTS em Mato Grosso e no Brasil

Artigo publicado na Revista Amazônica (UFPA), 8 (1): 142 – 171, 2016 

Partindo da dicotomia entre festa e militância que recai sobre as paradas da diversidade ou do orgulho LGBT, realizadas tanto nas grandes metrópoles quanto nos interiores, este artigo pretende desafiar esta lógica e mostrar as possibilidades políticas desse tipo de evento. Apesar de não indicarem o fim da violência ou a conquista de algum direito em lei, as paradas afirmam uma existência, marcam uma presença na superfície urbana, uma política que é a de colocar o corpo na rua, mas não um corpo único e desejável, mas corpos possíveis que ao ocuparem esse espaço público desafiam a heteronormatividade que havia lhes dado o armário como única possibilidade.

LER O ARTIGO18897001240_2f6b15a017_z

Simpósio temático “Gênero e Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas”

CHAMADA DE TRABALHOS PARA O 3º DESFAZENDO GÊNERO

O 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero recebe até 7 de maio de 2017 propostas de comunicações a serem apresentadas nos simpósios temáticos. O evento acontece em Campina Grande, Paraíba, entre 10 a 13 de outubro de 2017. No mesmo período, também podem ser enviadas propostas de pôsteres para serem expostos no evento, considerando o seguinte cronograma:

Prazo para envio de resumo simplificado: 31 de março a 07 de maio.
Divulgação de aceites: até 31 de maio.
Envio do Trabalho completo: 1 a 30 de junho.
Orientações para submissão de comunicações para os Simpósios Temáticos: http://desfazendogenero.com/#submetaproposta

DESFAZENDO

Gênero e Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas
Coordenadores: Marcos Aurélio da Silva (GRAPPA; PPGAS/UFMT); Paula Alves de Almeida (GRAPPA; ENCE/IBGE); Luiz Gustavo Pereira de Souza Correia (GRAPPA; PPGAS/UFS).
Email para propostas: st37@desfazendogenero.com
O simpósio pretende reunir pesquisadores e pesquisadoras que estudam as questões de gênero a partir de um olhar sobre o cinema, bem como aqueles que investigam a linguagem e a produção cinematográficas, a partir do campo das relações de gênero. Quais os lugares dos gêneros nos discursos cinematográficos? Como as sexualidades são apropriadas e negociadas nas produções cinematográficas? Se o cinema é um espaço de construção, crítica e reprodução, como o feminino e o masculino se posicionam e como são posicionados? Como são projetadas as sexualidades não hegemônicas em produções comerciais e independentes? Os estudos de cinema e a crítica feminista têm se colocado, desde os anos 70, diversas perguntas sobre o lugar da narrativa fílmica na constituição dos olhares sobre os gêneros e, mais recentemente, o discurso fílmico tem sido apropriado como forma de contestação e problematização dos discursos que buscam normatizar e domesticar as sexualidades. Este simpósio reunirá reflexões que tenham como eixo norteador as linguagens cinematográficas comerciais, independentes, alternativas, ficcionais e/ou documentais, como produtoras de significados que não apenas refletem as relações de gênero e sexualidade, mas que também constituem essas relações em processos contemporâneos de subjetivação. Se o cinema porta um discurso sobre as socialidades humanas, performando críticas, questionamentos, dúvidas e afirmando verdades, esse simpósio pretende reunir trabalhos que permitam entender o cinema como um espaço habitável por esses sujeitos que se constituem e são constituídos na linguagem cinematográfica. Também buscamos trabalhos que enfoquem produções audiovisuais, coletivos e/ou diretores, produtores e outros artistas que se utilizam da linguagem cinematográfica para desfazer ou desconstruir o gênero, oferecendo novos olhares para o cinema e para os sujeitos dessas produções. Quais são os desafios apresentados à teoria do cinema, aos estudos de gênero e sexualidade e às ciências humanas por novas cinematografias e pelos usos do cinema nas movimentações políticas e sociais?

SITE DO EVENTO

Gênero e cinema: entre narrativas, políticas e poéticas

As inscrições para comunicações no Fazendo Gênero 2017 foram prorrogadas até 13 de fevereiro de 2017. Abaixo simpósio coordenado pelo Grappa –Grupo de Análises de Políticas e Poéticas Audiovisuais.
http://www.fazendogenero.ufsc.br/wwc2017/

fg2017

ST045. Gênero e cinema: entre narrativas, políticas e poéticas
Coordenadoras/es: Debora Breder Barreto (Universidade Católica de Petrópolis), Marcos Aurélio da Silva (Universidade Federal de Mato Grosso)

Resumo: O simpósio, presente em duas edições anteriores do fazendo Gênero (2008 e 2013), pretende reunir pesquisadores e pesquisadoras que estudam as questões de gênero a partir de um olhar sobre o cinema, bem como aqueles que investigam a linguagem e a produção cinematográficas, a partir do campo das relações de gênero. Quais os lugares dos gêneros nos discursos cinematográficos? Como as sexualidades são apropriadas e negociadas nas produções cinematográficas? Se o cinema é um espaço de construção, crítica e reprodução, como o feminino e o masculino se posicionam e como são posicionados? Como são projetadas as sexualidades não hegemônicas em produções comerciais e independentes? Os estudos de cinema e a crítica feminista têm se colocado, desde os anos 70, diversas perguntas sobre o lugar da narrativa fílmica na constituição dos olhares sobre os gêneros e, mais recentemente, o discurso fílmico tem sido apropriado como forma de contestação e problematização dos discursos que buscam normatizar e domesticar as sexualidades. Este simpósio reunirá reflexões que tenham como eixo norteador as linguagens cinematográficas comerciais, independentes, alternativas, ficcionais e/ou documentais, como produtoras de significados que não apenas refletem as relações de gênero e sexualidade, mas que também constituem essas relações em processos contemporâneos de subjetivação. Se o cinema porta um discurso sobre as socialidades humanas, performando críticas, questionamentos, dúvidas e afirmando verdades, esse simpósio pretende reunir trabalhos que permitam entender o cinema como um espaço habitável por esses sujeitos que se constituem e são constituídos na linguagem cinematográfica. Também buscamos trabalhos que enfoquem produções audiovisuais, coletivos e/ou diretores, produtores e outros artistas que se utilizam da linguagem cinematográfica para desfazer ou desconstruir o gênero, oferecendo novos olhares para o cinema e para os sujeitos dessas produções. Quais são os desafios apresentados à teoria do cinema, aos estudos de gênero e sexualidade e às ciências humanas por novas cinematografias e pelos usos do cinema nas movimentações políticas e sociais?

O corpo no cinema, da tela à plateia: o caso dos festivais de filmes da diversidade sexual e de gênero

Artigo publicado na revista Ñanduty (UFGD), 4 (5), 2016

O artigo aborda algumas das relações entre corpo e cinema a partir da antropologia. Mais especificamente busca-se explorar as duas acepções da expressão “corpo no cinema” que pode abarcar desde como os corpos são construídos e representados nos filmesnanduty, quanto se referir – aproveitando a polifonia da palavra cinema que pode significar tanto a arte audiovisual quanto as salas de exibição – a como os corpos na plateia são afetados pelos filmes e suas representações. Produz-se assim uma antropologia do cinema preocupada com aspectos da multissensorialidade em que os sujeitos estão mergulhados em (e não sobre) ambientes dos quais as produções audiovisuais são parte importante. O campo etnográfico tem sido realizado nos últimos anos em festivais de cinema da diversidade sexual e de gênero, enfocando os filmes, os espectadores, as comunidades locais e transnacionais que tais filmes e festivais ensejam. O corpo, nestes contextos, pode ser tanto um território de produção de discursos, de adesão ou de contestação, na relação com os regimes de poder-saber do Estado-nação, da mídia e da ciência, mas sem dúvida um demarcador de identidades e de produção de sujeitos do contemporâneo, constituídos nas narrativas dos filmes e nos engajamentos das plateias que os colocam em rede.

CONTINUAR LENDO

O cinema de mulheres em Mato Grosso é tema da próxima edição das Jornadas do NAPlus

A próxima edição das Jornadas do NAPlus (Núcleo de Antropologia e Saberes Plurais/UFMT), no dia 13 de julho, tem como tema “Cinema e Gênero: perspectivas locais, questões globais” e vai contar com a exibição de dois filmes e suas respectivas diretoras que vão apresentar suas experiências sobre um cinema de mulheres no Mato Grosso. Serão exibidas as produções cuiabanas De volta pra casa (2015, 60’), de Danielle Bertolini, e Sob os pés (2015, 20’), de Juliana Segóvia e Neriely Dantas. O debate será mediado pelo professor Marcos Aurélio da Silva, um dos coordenadores do NAPlus. As projeções e os debates começam às 14h30, no Auditório do Museu Rondon da UFMT.

jornadas

 DE VOLTA PRA CASA (Cuiabá, 2015, 60′)documentário de Danielle Bertolini

Odevoltapracasa-danielle documentário aborda a violência doméstica por um prisma inusitado – os homens presos pela Lei Maria da Penha. Começou como um projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que visava diminuir a reincidência de prisões pela Lei Maria da Penha em Cuiabá. O resultado é um documentário que retrata a vontade, do único dos entrevistados, de retornar à família após sair da prisão. Foram três anos de trabalho que culminam agora com o lançamento do primeiro longa-metragem da jornalista e cineasta Danielle Bertolini.

Desde 2013, Danielle Bertolini vem acompanhando a situação de homens presos pela Lei Maria da Penha no Centro de Ressocialização Carumbé, em Cuiabá, através da documentação em vídeo, que inspiraram o filme. O documentário tem como mote a violência doméstica observada pelo prisma do homem encarcerado, que faz uma reflexão sobre o que o levou à prisão, além de depoimentos de agentes da Justiça, mulheres agredidas e ativistas. O título se refere ao caso do personagem José Aparecido, o único dos homens entrevistados que após sair da prisão irá tentar retomar sua família, seu lar – sua casa. O filme tem o patrocínio do Ministério da Educação, através do Programa de Extensão (Proext), do Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Cultura, e da Universidade Federal de Mato Grosso, e é produzido pela Cumbaru Produções Artísticas.

A diretora Danielle Bertolini tem em seu currículo outros documentários – Águas Encantadas do Pantanal (2001), Festa de Família (2001), Sobre a Violência (2009), Encontro de Parentes (2012), além da direção do Festival de Cinema Feminino de Chapada dos Guimarães – Tudo Sobre Mulheres.

SOB OS PÉS (Cuiabá, 2015, 20’), documentário de Neriely Dantas e Juliana Segóvia

sobospesO curta documentário Sob os Pés, dirigido por Juliana Segóvia e Neriely Dantas foi realizado no ano de 2015 e traz a narrativa de 11 skatistas que fazem das ruas e praças da cidade de Cuiabá espaços da prática de algo que vai muito além de uma simples atividade esportiva. O filme também aborda o nascimento do maior movimento de skate feminino do Brasil, em Cuiabá. Segundo as diretoras, “ser mulher no Brasil não é fácil, ainda mais quando assumimos posicionamentos que vão contra o fluxo dos padrões estabelecidos. A criação e desenvolvimento de grupos como o Divas Skateras nos inspira a noção de que enquanto mulheres e líderes temos muito pelo que reivindicar e conquistar”. O documentário foi desenvolvido em Cuiabá ao longo de três meses (somando o período de captação de imagens e pós produção), período em que as diretoras vivenciaram “experiências inesquecíveis com uma galera admirável, cordial, receptiva e organizada. O skate em Cuiabá é cada vez mais forte”.

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE AS JORNADAS, CLIQUE AQUI.

Sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

A quem interessa manter a diferença? …sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

O FATO
O Globo repórter desta sexta-feira representou não apenas retrocesso: ainda falando da diferenças entre homens e mulheres, coisa que fizeram è exaustão nas últimas décadas. Quem acompanha deve ter percebido que, nos últimos anos, o programa reveza uns poucos assuntos como comida nutritiva, bichinhos da África ou da Amazônia, e sempre parece se encontrar uma forma de falar nas diferenças entre homens e mulheres.

Antes de nos questionarmos se existe alguma diferença mesmo, que vá além uma “suposta biologia”, seria interessante pensar a que servem ou para quem servem essas diferenças. Quem se preocupa em mostrar cientificamente que homens e mulheres não são iguais? Por que é preciso estressar as diferenças? A quem elas interessam? Ou melhor: a quem incomoda a semelhança?

HIPÓTESE 1
Eu devo estar maluco, nada disso deve ser verdade. Ou ao menos estou doido de estar em casa numa sexta-feira à noite, vendo Rede Globo… decadência. Tá, vamos ao que interessa.

HIPÓTESE 2
Já não se faz mais bom jornalismo na televisão aberta como antigamente. E agora ficou mais fácil chover no molhado, pois falam de algo que parece não precisar explicar pois explica-se por si só: homens são diferentes de mulheres e mulheres são diferentes de homens. Quem atesta? A psiquiatria, sim, a psiquiatria.

Mostre pelas ruas várias fotos de diferentes expressões de sentimento e saberá que os homens não conseguem identificar a maioria, ao contrário das mulheres, craques em sentimento. Uma novidade, não é mesmo?

HIPÓTESE 3
É impressão minha ou antes se dizia que a TPM atingia grande parte das mulheres, porém não todas. Agora é “a TPM das mulheres”, todas têm, nem adianta fugir. E todos os homens e família inteiras sofrem com isso, é… Um poço de descontrole hormonal foi a forma como as mulheres foram apresentadas, sem que nenhum depoimento dissesse algo ao contrário. Que direito se arrogam em dispor das pessoas…

HIPÓTESE NEGADA
Não, não pode ter nada a ver com o fato de, pela primeira vez na história brasileira, uma mulher ter condições reais de se tornar presidente da República. Não, seria demais, quase uma teoria conspiratória. Eles não podem ser tão baixos… espero.

HIPÓTESE 4
Antigamente, as ciências físicas e naturais faziam de tudo para se distinguirem de outras ciências ou do senso comum. Na verdade, a tevê fazia essa ponte, entre esses dois universos. Hoje, não precisa mais da tevê: senso comum e ciência falam a mesma língua. Vitória do senso comum, mas não de qualquer senso comum. Uma certa baixeza parece ancorar as atitudes de quem tudo justifica com a biologia, condenando as mulheres a sempre serem “vítimas da natureza”, de uma condenação da qual não podem fugir e que agora pode explicar tudo. Vítimas e culpadas, ao mesmo tempo.

Não, não existem maridos ruins. Não existem crianças enlouquecedoras de qualquer mãe. Não existe casamento tão opressor que justifique um “saco cheio” por mês. Não, as mulheres verdadeiras não sofrem disso, pois elas possuem “instinto materno” que deve servir como antídoto para toda essa hipocrisia, não é verdade? As que não possuem devem mesmo estar loucas, com hormônios descontrolados. Que aprendam com os homens, todos carinhosos, amáveis, dispostos a ajudar, preocupados com os filhos, não são ciumentos (ao contrário de todas elas, segundo o Globo Repórter), pois tiveram a sorte de não ter uma biologia que é maior do que a sua “força”.

Ao que parece, são as mulheres que são diferentes dos homens e não o contrário. Eles é que são o tipo ideal a ser seguido. Mas que elas não tentem se igualar, para não dar mais trabalho aos psiquiatras. Aonde buscarão mais diferenças?

HIPÓTESE 5
Apesar de se basear em ideias do senso comum, tanto o Globo Repórter quanto os psiquiatras parecem partir de um mundo em que já não dá mais para saber quem é homem ou mulher, como se estivessem indiferenciados e, pior, como se isso fosse um problema. Há alguns séculos atrás, é bem provável que homens e mulheres não vivessem abismos sociais tão gigantescos, o que muitas vezes não é problematizado nas ciências humanas. Existem imensas lacunas na história que fez com que as mulheres fossem colocadas como “sexo” diferente: precisamos deixar urgentemente de entender isso como natural ou como os fatos da reprodução fossem uma explicação aceitável.

HIPÓTESE 6
Homens e mulheres são idealizações que foram construídas de formas diferentes em diversos períodos da história e continuam sendo refeitas. Mas existe uma forma hegemônica que vem se fortalecendo desde o século XVIII que é o da mulher esposa, mãe, doméstica e homem, provedor e público. Foi nessa época que os médicos, sim sempre eles, desenvolveram toda umascientia sexualis (Michel Foucault, A História da Sexualidade) , criando a diferença entre sexos e sexualidades, o que foi fundamental para as políticas de criação dos Estados-nações do Ocidente.

Criou-se um rol gigantesco de “patologias sexuais”, que incluíam o “homossexualismo”, que foi impondo às massas populacionais com métodos coercitivos e policiais. Naquele momento interessou dizer que homens e mulheres eram diferentes e que tinham corpos diferentes (Thomas Laqueur, A invenção do sexo ). Até então as diferenças eram de grau e não de tipo. Justificou-se toda uma série de pesquisas e uma das “descobertas” fundamentais do período foi a existência de hormônios sexuais – o que inclusive permitiu que se criasse terapias com hormônios de animais para “corrigir” masculinidades e feminilidades desviantes.

Será que saímos desse caminho? Acho que não… Acredito que talvez nunca cheguemos a um dia em que essas diferenças não sejam importantes, em que as pessoas não vão ser carimbadas na testa com uma identidade sexual prévia que parece justificar tudo, sem deixar saída. Pois não nos enganemos em pensar que se trata de uma simples diferença, já que é a partir dela, da forma como ela se constrói como verdade científica, que uma série de exclusões não param de proliferar. A construção da “homossexualidade” é apenas uma delas.