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O corpo na cidade: Festa, militância e os caminhos das políticas LGBTS em Mato Grosso e no Brasil

Artigo publicado na Revista Amazônica (UFPA), 8 (1): 142 – 171, 2016 

Partindo da dicotomia entre festa e militância que recai sobre as paradas da diversidade ou do orgulho LGBT, realizadas tanto nas grandes metrópoles quanto nos interiores, este artigo pretende desafiar esta lógica e mostrar as possibilidades políticas desse tipo de evento. Apesar de não indicarem o fim da violência ou a conquista de algum direito em lei, as paradas afirmam uma existência, marcam uma presença na superfície urbana, uma política que é a de colocar o corpo na rua, mas não um corpo único e desejável, mas corpos possíveis que ao ocuparem esse espaço público desafiam a heteronormatividade que havia lhes dado o armário como única possibilidade.

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Numa tarde qualquer: uma antropologia da Parada da Diversidade em Cuiabá e da cultura LGBT no Brasil contemporâneo

Artigo publicado na revista Bagoas (UFRN), 10 (15), 2016

A partir da pesquisa etnográfica feita na Parada da Diversidade de Cuiabá, entre os anos de 2014 e 2016, através de entrevistas com os organizadores e observação participante, o artigo pretende uma reflexão antropológica sobre esse tipo de evento que acontece no ocidente desde 1970, como forma de comemoração da “batalha debagoas Stonewall”. No Brasil, as paradas começaram em meados dos anos de 1990, tornando-se a de São Paulo a maior do mundo, e colocam o país entre os que mais realizam esse evento, com mais de duas centenas. Outro ponto discutido é a suposta falta de consistência política das paradas, por conta de terem um lado festivo bastante destacado. Como veremos, tanto a teoria antropológica quanto a própria história e o formato das paradas, como corporalidades que se inscrevem no tecido urbano, negam que esses “carnavais fora de época”, como são acusadas, sejam menos políticos ou mesmo eficientes que outras formas convencionais de militância.

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Localizando performances: territorialidade e os estudos antropológicos de gênero e sexualidade

Artigo publicado na Revista Urbana (CIEC/Unicamp), vol. 7, n. 2, 2015

capa_urbanaOs usos de conceitos e metáforas espaciais, nos estudos de gênero e sexualidade das últimas décadas, apontam uma dimensão crítica das ciências humanas e da própria militância em relação a teorias essencialistas ou deterministas, atingindo conceitos bastante caros a algumas disciplinas e aos movimentos sociais, como é o caso do conceito de identidade (ALCOFF, 2006). Este artigo parte de reflexões das teorias feministas pós-coloniais dos anos 1980 para pensar nas possibilidades que os conceitos espaciais trouxeram para as ciências humanas, em especial à antropologia, de onde parto, que tem se utilizado da noção de territorialidade como uma importante alternativa aos essencialismos que rondam as discussões sobre gênero e sexualidade. Assim, as metáforas e conceitos espaciais tornaram-se uma alternativa a teorias que pensam corpos e identidades enquanto unidades acabadas e distintas (Rich, 2002; PERLONGHER, 1987; 1993), abrindo também novas possibilidades para a teoria antropológica contemporânea em suas renovações críticas dos conceitos de sociedade e cultura (INGOLD, 2005).

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O corpo no cinema, da tela à plateia: o caso dos festivais de filmes da diversidade sexual e de gênero

Artigo publicado na revista Ñanduty (UFGD), 4 (5), 2016

O artigo aborda algumas das relações entre corpo e cinema a partir da antropologia. Mais especificamente busca-se explorar as duas acepções da expressão “corpo no cinema” que pode abarcar desde como os corpos são construídos e representados nos filmesnanduty, quanto se referir – aproveitando a polifonia da palavra cinema que pode significar tanto a arte audiovisual quanto as salas de exibição – a como os corpos na plateia são afetados pelos filmes e suas representações. Produz-se assim uma antropologia do cinema preocupada com aspectos da multissensorialidade em que os sujeitos estão mergulhados em (e não sobre) ambientes dos quais as produções audiovisuais são parte importante. O campo etnográfico tem sido realizado nos últimos anos em festivais de cinema da diversidade sexual e de gênero, enfocando os filmes, os espectadores, as comunidades locais e transnacionais que tais filmes e festivais ensejam. O corpo, nestes contextos, pode ser tanto um território de produção de discursos, de adesão ou de contestação, na relação com os regimes de poder-saber do Estado-nação, da mídia e da ciência, mas sem dúvida um demarcador de identidades e de produção de sujeitos do contemporâneo, constituídos nas narrativas dos filmes e nos engajamentos das plateias que os colocam em rede.

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Call for papers, Aceno

A ACENO, Revista de Antropologia do Centro-Oeste, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso, e o GRAPPA – Grupo de Análises de Políticas e Poéticas Audiovisuais convidam pesquisadores da Antropologia e das ciências humanas a participarem do dossiê “Políticas e Poéticas do Audiovisual na contemporaneidade: por uma antropologia do cinema”. LER MAIS

O cinema e a cidade

A cidade de São Paulo e os territórios do desejo: uma etnografia do Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual

The city of São Paulo and the territories of desire: an ethnography of Mix Brasil Film and Video Festival of Sexual Diversity

Marcos Aurélio da Silva[1]

Publicado no dossiê Comunicação, narrativas e territorialidades, da Revista Eco-Pós (UFRJ), v. 16, n. 3, p. 19-43, set./dez. 2013

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“Os fragmentos vão desfilar velozmente à nossa frente. A câmera não para. São Paulo despeja diante de nós tudo aquilo que tem a oferecer.”

Jean Claude Bernardet (1967)

Sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

A quem interessa manter a diferença? …sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

O FATO
O Globo repórter desta sexta-feira representou não apenas retrocesso: ainda falando da diferenças entre homens e mulheres, coisa que fizeram è exaustão nas últimas décadas. Quem acompanha deve ter percebido que, nos últimos anos, o programa reveza uns poucos assuntos como comida nutritiva, bichinhos da África ou da Amazônia, e sempre parece se encontrar uma forma de falar nas diferenças entre homens e mulheres.

Antes de nos questionarmos se existe alguma diferença mesmo, que vá além uma “suposta biologia”, seria interessante pensar a que servem ou para quem servem essas diferenças. Quem se preocupa em mostrar cientificamente que homens e mulheres não são iguais? Por que é preciso estressar as diferenças? A quem elas interessam? Ou melhor: a quem incomoda a semelhança?

HIPÓTESE 1
Eu devo estar maluco, nada disso deve ser verdade. Ou ao menos estou doido de estar em casa numa sexta-feira à noite, vendo Rede Globo… decadência. Tá, vamos ao que interessa.

HIPÓTESE 2
Já não se faz mais bom jornalismo na televisão aberta como antigamente. E agora ficou mais fácil chover no molhado, pois falam de algo que parece não precisar explicar pois explica-se por si só: homens são diferentes de mulheres e mulheres são diferentes de homens. Quem atesta? A psiquiatria, sim, a psiquiatria.

Mostre pelas ruas várias fotos de diferentes expressões de sentimento e saberá que os homens não conseguem identificar a maioria, ao contrário das mulheres, craques em sentimento. Uma novidade, não é mesmo?

HIPÓTESE 3
É impressão minha ou antes se dizia que a TPM atingia grande parte das mulheres, porém não todas. Agora é “a TPM das mulheres”, todas têm, nem adianta fugir. E todos os homens e família inteiras sofrem com isso, é… Um poço de descontrole hormonal foi a forma como as mulheres foram apresentadas, sem que nenhum depoimento dissesse algo ao contrário. Que direito se arrogam em dispor das pessoas…

HIPÓTESE NEGADA
Não, não pode ter nada a ver com o fato de, pela primeira vez na história brasileira, uma mulher ter condições reais de se tornar presidente da República. Não, seria demais, quase uma teoria conspiratória. Eles não podem ser tão baixos… espero.

HIPÓTESE 4
Antigamente, as ciências físicas e naturais faziam de tudo para se distinguirem de outras ciências ou do senso comum. Na verdade, a tevê fazia essa ponte, entre esses dois universos. Hoje, não precisa mais da tevê: senso comum e ciência falam a mesma língua. Vitória do senso comum, mas não de qualquer senso comum. Uma certa baixeza parece ancorar as atitudes de quem tudo justifica com a biologia, condenando as mulheres a sempre serem “vítimas da natureza”, de uma condenação da qual não podem fugir e que agora pode explicar tudo. Vítimas e culpadas, ao mesmo tempo.

Não, não existem maridos ruins. Não existem crianças enlouquecedoras de qualquer mãe. Não existe casamento tão opressor que justifique um “saco cheio” por mês. Não, as mulheres verdadeiras não sofrem disso, pois elas possuem “instinto materno” que deve servir como antídoto para toda essa hipocrisia, não é verdade? As que não possuem devem mesmo estar loucas, com hormônios descontrolados. Que aprendam com os homens, todos carinhosos, amáveis, dispostos a ajudar, preocupados com os filhos, não são ciumentos (ao contrário de todas elas, segundo o Globo Repórter), pois tiveram a sorte de não ter uma biologia que é maior do que a sua “força”.

Ao que parece, são as mulheres que são diferentes dos homens e não o contrário. Eles é que são o tipo ideal a ser seguido. Mas que elas não tentem se igualar, para não dar mais trabalho aos psiquiatras. Aonde buscarão mais diferenças?

HIPÓTESE 5
Apesar de se basear em ideias do senso comum, tanto o Globo Repórter quanto os psiquiatras parecem partir de um mundo em que já não dá mais para saber quem é homem ou mulher, como se estivessem indiferenciados e, pior, como se isso fosse um problema. Há alguns séculos atrás, é bem provável que homens e mulheres não vivessem abismos sociais tão gigantescos, o que muitas vezes não é problematizado nas ciências humanas. Existem imensas lacunas na história que fez com que as mulheres fossem colocadas como “sexo” diferente: precisamos deixar urgentemente de entender isso como natural ou como os fatos da reprodução fossem uma explicação aceitável.

HIPÓTESE 6
Homens e mulheres são idealizações que foram construídas de formas diferentes em diversos períodos da história e continuam sendo refeitas. Mas existe uma forma hegemônica que vem se fortalecendo desde o século XVIII que é o da mulher esposa, mãe, doméstica e homem, provedor e público. Foi nessa época que os médicos, sim sempre eles, desenvolveram toda umascientia sexualis (Michel Foucault, A História da Sexualidade) , criando a diferença entre sexos e sexualidades, o que foi fundamental para as políticas de criação dos Estados-nações do Ocidente.

Criou-se um rol gigantesco de “patologias sexuais”, que incluíam o “homossexualismo”, que foi impondo às massas populacionais com métodos coercitivos e policiais. Naquele momento interessou dizer que homens e mulheres eram diferentes e que tinham corpos diferentes (Thomas Laqueur, A invenção do sexo ). Até então as diferenças eram de grau e não de tipo. Justificou-se toda uma série de pesquisas e uma das “descobertas” fundamentais do período foi a existência de hormônios sexuais – o que inclusive permitiu que se criasse terapias com hormônios de animais para “corrigir” masculinidades e feminilidades desviantes.

Será que saímos desse caminho? Acho que não… Acredito que talvez nunca cheguemos a um dia em que essas diferenças não sejam importantes, em que as pessoas não vão ser carimbadas na testa com uma identidade sexual prévia que parece justificar tudo, sem deixar saída. Pois não nos enganemos em pensar que se trata de uma simples diferença, já que é a partir dela, da forma como ela se constrói como verdade científica, que uma série de exclusões não param de proliferar. A construção da “homossexualidade” é apenas uma delas.

Existe um cinema gay?

Artigo publicado no Blogspot em 5 de janeiro de 2009

Amigos. Antes de dar início às minhas postagens, quando cada uma vai corresponder a um filme assistido durante esta pesquisa, gostaria de estreiar este blog expondo algumas reflexões sobre cinema, imagem, cultura gay, gênero e sexualidade que tenho elaborado nos últimos meses, desde que comecei meu doutorado.

A primeira delas é pensar se realmente existe um cinema gay e o que seria? Harvey Fierstein certa vez disse que uma peça de teatro gay deve ser uma peça que se apaixona por outra. A brincadeira sugere uma necessidade de refletirmos sobre rótulos e gêneros cinematográficos que, antes de representarem tipos de filme, parecem segregar as produções e negar outras possibilidades de conteúdos que estas películas nos oferecem.

Pensar na existência ou não de um cinema gay é também a forma que encontro para delimitar os filmes que vão fazer parte da minha pesquisa. Tenho cerca de 150 títulos de filmes que tenho selecionado por conterem menções à homossexualidade ou histórias em que as relações de mesmo sexo parecem ganhar relevância no enredo. Na maioria deles, a questão da sexualidade parece estar em primeiro plano, como uma descoberta pessoal, um relacionamento afetivo, um problema familiar, apontando quase sempre que viver fora dos limites da heterossexualidade obrigatória é quase sempre um desafio doloroso e penoso.

Raros são os filmes em que as relações afetivas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres são colocadas de forma que não sejam a problemática central do filme, permitindo que os protagonistas atuem em cima de outros assuntos. O melhor exemplo do tipo de produção a que estou me referindo é, na verdade, um seriado americano chamado Dante’s Cove . A história gira em torno de um velho hotel em que seus moradores (todos gays e lésbicas) se defrontam com as aparições de fantasmas que assombram a casa. Ou seja, no universo do filme “it’s ok to be gay”, não é o que faz girar a trama.

Mas não é o caso de outros títulos que parecem enfatizar demais as relações de mesmo sexo como problema. Mesmo filmes bem positivos que mostram os territórios gays, as vivências, os grupos de amigos, famílias que aceitam e cenas românticas e eróticas, parecem sempre encontrar fôlego em obstáculos e problemas construídos em torno da questão gay. Sempre há um possível namorado que não quer “assumir”, ou um pai conservador relutante, ou um amigo da escola que prefere fazer piadas. Em muitos filmes, a descoberta da (homo) sexualidade parece sempre vir acompanhada de perdas, de isolamento. Por mais que um novo mundo seja apresentado àquele que se “assume”, ele/a precisa deixar pra trás tudo aquilo que não condiz com a nova vida.

Mas talvez não seja à toa a construção das experiências homossexuais quase como um “desejo proibido”. Se, como já diziam nossas avós, “tudo o que é proibido é mais gostoso”, não causa surpresa que seja justamente através de histórias proibidas ou impossíveis de desejo e amor entre duas pessoas do “mesmo sexo” que estes filmes constroem-se como atraentes, excitáveis, desejáveis. Por mais que vivenciamos momentos de abertura e novas possibilidades eróticas e sentimentais e construamos espaços em que “it’s ok to be gay”, sempre nos causará mais interesse naquele beijo que pode ou não pode acontecer, naquele personagem heterossexual que de repente desejará alguém de seu sexo e uma série de percalços que parecem potencializar ainda mais o nosso tesão como espectador.

Bom, são só algumas reflexões. Nos próximos posts, apresentarei os filmes que estou assistindo.

Sempre que puder, vou colocar cenas/trechos de filmes que ilustrem minhas críticas. Hoje, para estreiar, vou deixar um que talvez não ilustre a resenha mas eu achei bonitinho e resolvi colocar. Encontrei ele no blog do João Loureiro ( http://filmesglbts.blogspot.com/ ) que eu sugiro que vocês visitem, pois é ótimo. O João tem postado sobre ótimos filmes GLBTs e ele nos oferece sempre os links para baixarmos filmes e legendas.

Para Priscilla, obrigado por tudo

Artigo publicado no jornal Zero, novembro de 1996

A “ferveção” drag-queen que vem ganhando espaço na sociedade, conquistou seu lugar também no cinema. O agito, o exagero no vestuário, o bom humor inabalável desses rapazes que pouco têm em comum com travestis e transformistas, veio à tona com Priscilla, a Rainha do deserto(Austrália, 1994) e Para Wong Foo, Obrigado por tudo, Julie Newmar (EUA, 1995). Apesar de tratarem do mesmo tema, os dois filmes apresentam diferenças fundamentais que nos dão conta do cinema preconceituoso dos grandes estúdios.

Priscilla… conta a história de três drags que atravessam a Austrália para a realização de um show. No caminho, o ônibus dirigido por elas (que se chama Priscilla) quebra, elas encontram os exóticos aborígenes, dão de frente com a imensidão de desertos australianos, passam por pequenas cidades onde vivenciam as mais cômicas situações, e compartilham entre si as angústias e os deslumbres de quem atravessou as fronteiras dos gêneros masculino e feminino.

Para Wong Foo …, por sua vez, é também um road movie que também conta a história de três drag-queens , que também atravessam o país (só que desta vez os Estados Unidos). A caminho de Hollywood, onde participarão do concurso “ drag-queen da América”, o carro conversível delas também quebra e as obriga a também parar numa pequena cidade, onde se deparam com o preconceito e a monotonia de um vilarejo. Coincidência?

As diferenças fundamentais entre os dois filmes se centram na abordagem de um mesmo tema. Priscilla… trabalha bem com a questão do exótico, do exagerado, características essenciais das drag-queens . Ao contrário,Para Wong Foo … deixa-se cair no senso comum apresentando as dragscomo homens que se sentem bem num requintado vestido longo.

O estereótipo do feminino é característica fundamental do filme americano, aproximando os personagens Vida Bohemme (Patrick Swayze), Noxeema Jackson (Wesley Snipes) e Chichi Rodriguez (John Leguizamo) de travestis. Buscam ser mulheres perfeitas, com uma certa sensibilidade estereotipada que se distancia dos gestos e atos exagerados das drag-queens. Um exemplo disso é a inserção das três no vilarejo, quando imaginam que todos na cidade acreditam que são apenas mulheres altas e fortes.

As três drags de Priscilla , no entanto, desembarcam na pequena cidade australiana, esbanjando graça em perucas coloridas e um vestido feito com chinelos de borracha. Em nenhum momento tem a pretensão de enganar que são mulheres. Muito pelo contrário, Mitzie (Hugo Weaving), Bernardette (Terence Stamp) e Felicia (Guy Pearce) fazem questão de mostrar às pessoas o resultado da mistura do masculino com o feminino e ainda uma boa dose do que pode haver de mais exótico no vestuário e nos gestos humanos.

O que se pretende aqui não é fazer apologia ao movimento drag-queen e desmerecer travestis e transexuais. Mas é que Para Wong Foo… , ao contrário de Priscilla… , pouco ajuda na desconstrução de um mito – de que homens gays que se vestem de mulher são todos travestis. O filme americano se apropria de uma nomenclatura ( drag-queen ) para apresentar ao mundo, como se fosse novidade, um segmento há muito conhecido. Os travestis devem também, é claro, ter seu espaço na mídia. O que é importante frisar neles são os nomes desses segmentos. Os produtores de Para Wong Foo… devem não ter tido coragem de apostar num grupo já tão marginalizado. O filme teria tida menos sucesso se você apresentado ao mundo como a história de três travestis?

No geral, podemos pensar no que os dois filmes nos trazem à tona. Para Wong Foo… apesar de ser divertido, não passa dos velhos padrões da comédia hollywoodiana, da mais simples. O grande dilema discutido é a falta de caráter da drag-queen que ousa deixar que um homem se apaixone por ela. E há também espaço para a celebração do amor heterossexual, quando todos os casais do filme se reencontram num clima bem forçado de contos-de-fada. O amor homossexual, ou seja, das drags,fica de lado como se a elas estivesse reservado apenas o mundo cor-de-rosa das passarelas e dos saltos altos. Parecem estar pagando um preço.

Priscilla… apresenta inúmeras questões. De forma até didática expõe o tom exótico das drags em contato com animais do deserto e com aborígenes: a linguagem do exoticismo. O exagero dos gestos e vestuários dos personagens são postos em diálogo com imensos desertos e espaços infinitos: a linguagem do exagero. A sequência dessas imagens podem trazer à luz a imensidão de gêneros e sexualidades da espécie humana, que não se enquadram apenas em masculino e feminino. E as drag-queenssão só uma amostra, talvez a mais divertida dessa imensidão. À elas também é reservado, no filme, espaço às paixões, às imitações do Abba e até o direito de – por que não – cantar ópera no deserto com uma gigantesca echarpe cor-de-prata ao vento.

Comparar Priscilla… e Para Wong Foo… pode ser muito mais que dissertar sobre esses rapazes que alegremente brincam em cima de convenções da sexualidade humana. Percebemos muito mais que diretores falando sobre assuntos que não dominam – o que não é o caso de Stephen Elliot dePriscilla… Nos deparamos, sim, com formas de abordagem que já vêm recheadas de idéias do senso comum, que pouco fazem para desmistificar estas mesmas idéias – o que Beeban Kidron, diretora de Para Wong Foo…, infelizmente não fez.