Para Priscilla, obrigado por tudo

Artigo publicado no jornal Zero, novembro de 1996

A “ferveção” drag-queen que vem ganhando espaço na sociedade, conquistou seu lugar também no cinema. O agito, o exagero no vestuário, o bom humor inabalável desses rapazes que pouco têm em comum com travestis e transformistas, veio à tona com Priscilla, a Rainha do deserto(Austrália, 1994) e Para Wong Foo, Obrigado por tudo, Julie Newmar (EUA, 1995). Apesar de tratarem do mesmo tema, os dois filmes apresentam diferenças fundamentais que nos dão conta do cinema preconceituoso dos grandes estúdios.

Priscilla… conta a história de três drags que atravessam a Austrália para a realização de um show. No caminho, o ônibus dirigido por elas (que se chama Priscilla) quebra, elas encontram os exóticos aborígenes, dão de frente com a imensidão de desertos australianos, passam por pequenas cidades onde vivenciam as mais cômicas situações, e compartilham entre si as angústias e os deslumbres de quem atravessou as fronteiras dos gêneros masculino e feminino.

Para Wong Foo …, por sua vez, é também um road movie que também conta a história de três drag-queens , que também atravessam o país (só que desta vez os Estados Unidos). A caminho de Hollywood, onde participarão do concurso “ drag-queen da América”, o carro conversível delas também quebra e as obriga a também parar numa pequena cidade, onde se deparam com o preconceito e a monotonia de um vilarejo. Coincidência?

As diferenças fundamentais entre os dois filmes se centram na abordagem de um mesmo tema. Priscilla… trabalha bem com a questão do exótico, do exagerado, características essenciais das drag-queens . Ao contrário,Para Wong Foo … deixa-se cair no senso comum apresentando as dragscomo homens que se sentem bem num requintado vestido longo.

O estereótipo do feminino é característica fundamental do filme americano, aproximando os personagens Vida Bohemme (Patrick Swayze), Noxeema Jackson (Wesley Snipes) e Chichi Rodriguez (John Leguizamo) de travestis. Buscam ser mulheres perfeitas, com uma certa sensibilidade estereotipada que se distancia dos gestos e atos exagerados das drag-queens. Um exemplo disso é a inserção das três no vilarejo, quando imaginam que todos na cidade acreditam que são apenas mulheres altas e fortes.

As três drags de Priscilla , no entanto, desembarcam na pequena cidade australiana, esbanjando graça em perucas coloridas e um vestido feito com chinelos de borracha. Em nenhum momento tem a pretensão de enganar que são mulheres. Muito pelo contrário, Mitzie (Hugo Weaving), Bernardette (Terence Stamp) e Felicia (Guy Pearce) fazem questão de mostrar às pessoas o resultado da mistura do masculino com o feminino e ainda uma boa dose do que pode haver de mais exótico no vestuário e nos gestos humanos.

O que se pretende aqui não é fazer apologia ao movimento drag-queen e desmerecer travestis e transexuais. Mas é que Para Wong Foo… , ao contrário de Priscilla… , pouco ajuda na desconstrução de um mito – de que homens gays que se vestem de mulher são todos travestis. O filme americano se apropria de uma nomenclatura ( drag-queen ) para apresentar ao mundo, como se fosse novidade, um segmento há muito conhecido. Os travestis devem também, é claro, ter seu espaço na mídia. O que é importante frisar neles são os nomes desses segmentos. Os produtores de Para Wong Foo… devem não ter tido coragem de apostar num grupo já tão marginalizado. O filme teria tida menos sucesso se você apresentado ao mundo como a história de três travestis?

No geral, podemos pensar no que os dois filmes nos trazem à tona. Para Wong Foo… apesar de ser divertido, não passa dos velhos padrões da comédia hollywoodiana, da mais simples. O grande dilema discutido é a falta de caráter da drag-queen que ousa deixar que um homem se apaixone por ela. E há também espaço para a celebração do amor heterossexual, quando todos os casais do filme se reencontram num clima bem forçado de contos-de-fada. O amor homossexual, ou seja, das drags,fica de lado como se a elas estivesse reservado apenas o mundo cor-de-rosa das passarelas e dos saltos altos. Parecem estar pagando um preço.

Priscilla… apresenta inúmeras questões. De forma até didática expõe o tom exótico das drags em contato com animais do deserto e com aborígenes: a linguagem do exoticismo. O exagero dos gestos e vestuários dos personagens são postos em diálogo com imensos desertos e espaços infinitos: a linguagem do exagero. A sequência dessas imagens podem trazer à luz a imensidão de gêneros e sexualidades da espécie humana, que não se enquadram apenas em masculino e feminino. E as drag-queenssão só uma amostra, talvez a mais divertida dessa imensidão. À elas também é reservado, no filme, espaço às paixões, às imitações do Abba e até o direito de – por que não – cantar ópera no deserto com uma gigantesca echarpe cor-de-prata ao vento.

Comparar Priscilla… e Para Wong Foo… pode ser muito mais que dissertar sobre esses rapazes que alegremente brincam em cima de convenções da sexualidade humana. Percebemos muito mais que diretores falando sobre assuntos que não dominam – o que não é o caso de Stephen Elliot dePriscilla… Nos deparamos, sim, com formas de abordagem que já vêm recheadas de idéias do senso comum, que pouco fazem para desmistificar estas mesmas idéias – o que Beeban Kidron, diretora de Para Wong Foo…, infelizmente não fez.

Antropologia e Cinema