O cinema e a cidade

A cidade de São Paulo e os territórios do desejo: uma etnografia do Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual

The city of São Paulo and the territories of desire: an ethnography of Mix Brasil Film and Video Festival of Sexual Diversity

Marcos Aurélio da Silva[1]

Publicado no dossiê Comunicação, narrativas e territorialidades, da Revista Eco-Pós (UFRJ), v. 16, n. 3, p. 19-43, set./dez. 2013

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“Os fragmentos vão desfilar velozmente à nossa frente. A câmera não para. São Paulo despeja diante de nós tudo aquilo que tem a oferecer.”

Jean Claude Bernardet (1967)

“Crianças Invisíveis”, na UFSC

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TRANSES – Núcleo de Antropologia do Contemporâneo/PPGAS/UFSC convida:

Ciclo de Cinema e Debates
Trânsitos Contemporâneos
apresenta

Crianças Invisíveis
(vários diretores, FRA/ITA, 120′, 2005)

Reunião de sete curtas-metragens, todos
protagonizados por crianças de países diferentes,
dirigidos por importantes cineastas, incluindo Spike
Lee, Ridley Scott e a brasileira Kátia Lund.
Seja coletando sucata nas ruas de São Paulo ou
roubando para viver em Nápoles e no interior da
Sérvia, os filmes são protagonizados por personagens
que lidam com uma dura realidade, na qual crescer
muito cedo acaba sendo a única saída.

26 de junho – quarta-feira – 14h00 – Auditório do CFH/UFSC

TRANSES – Núcleo de Antropologia do Contemporâneo/PPGAS/UFSC convida:Ciclo de Cinema e DebatesTrânsitos…

Posted by Trânsitos Contemporâneos – Ciclo de Cinema e Debates on Segunda, 17 de junho de 2013

“O celuloide secreto”, na UFSC

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Trânsitos Contemporâneos
apresenta

O celuloide secreto
(de Rob Epstein & Jeffrey Friedman, documentário, 102’, FRA/UK/EUA/ALE, 1995)

O documentário entrevista vários homens e mulheres conectados à indústria cinematográfica de Hollywood para comentar várias passagens nos filmes e suas próprias experiências pessoais em como lidar e atuar com e como personagens LGBT. Dos personagens afetados à censura do Código de Produção de Hollywood, também conhecido como Código Hays, dos personagens implicitamente homossexuais, dos cruéis estereótipos aos progressos conquistados na década de 1990.

10 de maio – sexta-feira – 14h30 – Sala 110 (Depto Antropologia)

Fazendo Gênero e Cinema 2013

 

Coordenado por mim e Débora Breder (UFMG), o simpósio temático “Gênero e Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas”, programado para o Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, faz parte das atividades do GRAPPA, grupo de pesquisa em Antropologia do Cinema, do qual faço parte, e que tem estado presente nos principais eventos científicos da Antropologia nacional e sul-americana. O Fazendo Gênero será realizado de 16 a 20 de setembro de 2013, na Universidade Federal de Santa Catarina. As inscrições para a apresentação de trabalhos em Comunicações Orais ou Pôsteres estão abertas até o dia 20 de março de 2013.

SIMPÓSIO TEMÁTICO 052
Gênero e Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas

Coordenadoras/es:
DEBORA BREDER BARRETO (Pós-doutorando(a) – Universidade Federal de Minas Gerais), MARCOS AURÉLIO DA SILVA (Pós-doutorando(a) – Universidade Federal de Santa Catarina)

Resumo : O simpósio pretende reunir pesquisadores e pesquisadoras que estudam as questões de gênero a partir de um olhar sobre o cinema, bem como aqueles que investigam a linguagem e a produção cinematográficas, a partir do campo das relações de gênero. Quais os lugares dos gêneros nos discursos cinematográficos? Como as sexualidades são apropriadas e negociadas nas produções cinematográficas? Se o cinema é um espaço de construção, crítica e reprodução, como a feminino e o masculino se posicionam e como são posicionados? Como são projetadas as sexualidades não hegemônicas em produções comerciais e independentes? Os estudos de cinema e a crítica feminista têm se colocado, desde os anos 70, diversas perguntas sobre o lugar da narrativa fílmica na constituição dos olhares sobre os gêneros e, mais recentemente, o discurso fílmico tem sido apropriado como forma de contestação e problematização dos discursos que buscam normatizar e domesticar as sexualidades. Este simpósio reunirá reflexões que tenham como eixo norteador as linguagens cinematográficas comerciais, independentes, alternativas, ficcionais e/ou documentais, como produtoras de significados que não apenas refletem as relações de gênero e sexualidade, mas que também constituem essas relações em processos contemporâneos de subjetivação. Se o cinema porta um discurso sobre as socialidades humanas, performando críticas, questionamentos, dúvidas e afirmando verdades, esse simpósio pretende reunir trabalhos que permitam entender o cinema como um espaço habitável por esses sujeitos que se constituem e são constituídos na linguagem cinematográfica.

PARA SE INSCREVER CLIQUE AQUI

Para conhecer mais do GRAPPA, visite nosso blog(http://antrocine.blogspot.com.br) ou nossa página no Facebook(http://www.facebook.com/AntropologiaDoCinema)

Sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

A quem interessa manter a diferença? …sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

O FATO
O Globo repórter desta sexta-feira representou não apenas retrocesso: ainda falando da diferenças entre homens e mulheres, coisa que fizeram è exaustão nas últimas décadas. Quem acompanha deve ter percebido que, nos últimos anos, o programa reveza uns poucos assuntos como comida nutritiva, bichinhos da África ou da Amazônia, e sempre parece se encontrar uma forma de falar nas diferenças entre homens e mulheres.

Antes de nos questionarmos se existe alguma diferença mesmo, que vá além uma “suposta biologia”, seria interessante pensar a que servem ou para quem servem essas diferenças. Quem se preocupa em mostrar cientificamente que homens e mulheres não são iguais? Por que é preciso estressar as diferenças? A quem elas interessam? Ou melhor: a quem incomoda a semelhança?

HIPÓTESE 1
Eu devo estar maluco, nada disso deve ser verdade. Ou ao menos estou doido de estar em casa numa sexta-feira à noite, vendo Rede Globo… decadência. Tá, vamos ao que interessa.

HIPÓTESE 2
Já não se faz mais bom jornalismo na televisão aberta como antigamente. E agora ficou mais fácil chover no molhado, pois falam de algo que parece não precisar explicar pois explica-se por si só: homens são diferentes de mulheres e mulheres são diferentes de homens. Quem atesta? A psiquiatria, sim, a psiquiatria.

Mostre pelas ruas várias fotos de diferentes expressões de sentimento e saberá que os homens não conseguem identificar a maioria, ao contrário das mulheres, craques em sentimento. Uma novidade, não é mesmo?

HIPÓTESE 3
É impressão minha ou antes se dizia que a TPM atingia grande parte das mulheres, porém não todas. Agora é “a TPM das mulheres”, todas têm, nem adianta fugir. E todos os homens e família inteiras sofrem com isso, é… Um poço de descontrole hormonal foi a forma como as mulheres foram apresentadas, sem que nenhum depoimento dissesse algo ao contrário. Que direito se arrogam em dispor das pessoas…

HIPÓTESE NEGADA
Não, não pode ter nada a ver com o fato de, pela primeira vez na história brasileira, uma mulher ter condições reais de se tornar presidente da República. Não, seria demais, quase uma teoria conspiratória. Eles não podem ser tão baixos… espero.

HIPÓTESE 4
Antigamente, as ciências físicas e naturais faziam de tudo para se distinguirem de outras ciências ou do senso comum. Na verdade, a tevê fazia essa ponte, entre esses dois universos. Hoje, não precisa mais da tevê: senso comum e ciência falam a mesma língua. Vitória do senso comum, mas não de qualquer senso comum. Uma certa baixeza parece ancorar as atitudes de quem tudo justifica com a biologia, condenando as mulheres a sempre serem “vítimas da natureza”, de uma condenação da qual não podem fugir e que agora pode explicar tudo. Vítimas e culpadas, ao mesmo tempo.

Não, não existem maridos ruins. Não existem crianças enlouquecedoras de qualquer mãe. Não existe casamento tão opressor que justifique um “saco cheio” por mês. Não, as mulheres verdadeiras não sofrem disso, pois elas possuem “instinto materno” que deve servir como antídoto para toda essa hipocrisia, não é verdade? As que não possuem devem mesmo estar loucas, com hormônios descontrolados. Que aprendam com os homens, todos carinhosos, amáveis, dispostos a ajudar, preocupados com os filhos, não são ciumentos (ao contrário de todas elas, segundo o Globo Repórter), pois tiveram a sorte de não ter uma biologia que é maior do que a sua “força”.

Ao que parece, são as mulheres que são diferentes dos homens e não o contrário. Eles é que são o tipo ideal a ser seguido. Mas que elas não tentem se igualar, para não dar mais trabalho aos psiquiatras. Aonde buscarão mais diferenças?

HIPÓTESE 5
Apesar de se basear em ideias do senso comum, tanto o Globo Repórter quanto os psiquiatras parecem partir de um mundo em que já não dá mais para saber quem é homem ou mulher, como se estivessem indiferenciados e, pior, como se isso fosse um problema. Há alguns séculos atrás, é bem provável que homens e mulheres não vivessem abismos sociais tão gigantescos, o que muitas vezes não é problematizado nas ciências humanas. Existem imensas lacunas na história que fez com que as mulheres fossem colocadas como “sexo” diferente: precisamos deixar urgentemente de entender isso como natural ou como os fatos da reprodução fossem uma explicação aceitável.

HIPÓTESE 6
Homens e mulheres são idealizações que foram construídas de formas diferentes em diversos períodos da história e continuam sendo refeitas. Mas existe uma forma hegemônica que vem se fortalecendo desde o século XVIII que é o da mulher esposa, mãe, doméstica e homem, provedor e público. Foi nessa época que os médicos, sim sempre eles, desenvolveram toda umascientia sexualis (Michel Foucault, A História da Sexualidade) , criando a diferença entre sexos e sexualidades, o que foi fundamental para as políticas de criação dos Estados-nações do Ocidente.

Criou-se um rol gigantesco de “patologias sexuais”, que incluíam o “homossexualismo”, que foi impondo às massas populacionais com métodos coercitivos e policiais. Naquele momento interessou dizer que homens e mulheres eram diferentes e que tinham corpos diferentes (Thomas Laqueur, A invenção do sexo ). Até então as diferenças eram de grau e não de tipo. Justificou-se toda uma série de pesquisas e uma das “descobertas” fundamentais do período foi a existência de hormônios sexuais – o que inclusive permitiu que se criasse terapias com hormônios de animais para “corrigir” masculinidades e feminilidades desviantes.

Será que saímos desse caminho? Acho que não… Acredito que talvez nunca cheguemos a um dia em que essas diferenças não sejam importantes, em que as pessoas não vão ser carimbadas na testa com uma identidade sexual prévia que parece justificar tudo, sem deixar saída. Pois não nos enganemos em pensar que se trata de uma simples diferença, já que é a partir dela, da forma como ela se constrói como verdade científica, que uma série de exclusões não param de proliferar. A construção da “homossexualidade” é apenas uma delas.

Existe um cinema gay?

Artigo publicado no Blogspot em 5 de janeiro de 2009

Amigos. Antes de dar início às minhas postagens, quando cada uma vai corresponder a um filme assistido durante esta pesquisa, gostaria de estreiar este blog expondo algumas reflexões sobre cinema, imagem, cultura gay, gênero e sexualidade que tenho elaborado nos últimos meses, desde que comecei meu doutorado.

A primeira delas é pensar se realmente existe um cinema gay e o que seria? Harvey Fierstein certa vez disse que uma peça de teatro gay deve ser uma peça que se apaixona por outra. A brincadeira sugere uma necessidade de refletirmos sobre rótulos e gêneros cinematográficos que, antes de representarem tipos de filme, parecem segregar as produções e negar outras possibilidades de conteúdos que estas películas nos oferecem.

Pensar na existência ou não de um cinema gay é também a forma que encontro para delimitar os filmes que vão fazer parte da minha pesquisa. Tenho cerca de 150 títulos de filmes que tenho selecionado por conterem menções à homossexualidade ou histórias em que as relações de mesmo sexo parecem ganhar relevância no enredo. Na maioria deles, a questão da sexualidade parece estar em primeiro plano, como uma descoberta pessoal, um relacionamento afetivo, um problema familiar, apontando quase sempre que viver fora dos limites da heterossexualidade obrigatória é quase sempre um desafio doloroso e penoso.

Raros são os filmes em que as relações afetivas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres são colocadas de forma que não sejam a problemática central do filme, permitindo que os protagonistas atuem em cima de outros assuntos. O melhor exemplo do tipo de produção a que estou me referindo é, na verdade, um seriado americano chamado Dante’s Cove . A história gira em torno de um velho hotel em que seus moradores (todos gays e lésbicas) se defrontam com as aparições de fantasmas que assombram a casa. Ou seja, no universo do filme “it’s ok to be gay”, não é o que faz girar a trama.

Mas não é o caso de outros títulos que parecem enfatizar demais as relações de mesmo sexo como problema. Mesmo filmes bem positivos que mostram os territórios gays, as vivências, os grupos de amigos, famílias que aceitam e cenas românticas e eróticas, parecem sempre encontrar fôlego em obstáculos e problemas construídos em torno da questão gay. Sempre há um possível namorado que não quer “assumir”, ou um pai conservador relutante, ou um amigo da escola que prefere fazer piadas. Em muitos filmes, a descoberta da (homo) sexualidade parece sempre vir acompanhada de perdas, de isolamento. Por mais que um novo mundo seja apresentado àquele que se “assume”, ele/a precisa deixar pra trás tudo aquilo que não condiz com a nova vida.

Mas talvez não seja à toa a construção das experiências homossexuais quase como um “desejo proibido”. Se, como já diziam nossas avós, “tudo o que é proibido é mais gostoso”, não causa surpresa que seja justamente através de histórias proibidas ou impossíveis de desejo e amor entre duas pessoas do “mesmo sexo” que estes filmes constroem-se como atraentes, excitáveis, desejáveis. Por mais que vivenciamos momentos de abertura e novas possibilidades eróticas e sentimentais e construamos espaços em que “it’s ok to be gay”, sempre nos causará mais interesse naquele beijo que pode ou não pode acontecer, naquele personagem heterossexual que de repente desejará alguém de seu sexo e uma série de percalços que parecem potencializar ainda mais o nosso tesão como espectador.

Bom, são só algumas reflexões. Nos próximos posts, apresentarei os filmes que estou assistindo.

Sempre que puder, vou colocar cenas/trechos de filmes que ilustrem minhas críticas. Hoje, para estreiar, vou deixar um que talvez não ilustre a resenha mas eu achei bonitinho e resolvi colocar. Encontrei ele no blog do João Loureiro ( http://filmesglbts.blogspot.com/ ) que eu sugiro que vocês visitem, pois é ótimo. O João tem postado sobre ótimos filmes GLBTs e ele nos oferece sempre os links para baixarmos filmes e legendas.

Antropologia e Cinema