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Localizando performances: territorialidade e os estudos antropológicos de gênero e sexualidade

Artigo publicado na Revista Urbana (CIEC/Unicamp), vol. 7, n. 2, 2015.

capa_urbanaOs usos de conceitos e metáforas espaciais, nos estudos de gênero e sexualidade das últimas décadas, apontam uma dimensão crítica das ciências humanas e da própria militância em relação a teorias essencialistas ou deterministas, atingindo conceitos bastante caros a algumas disciplinas e aos movimentos sociais, como é o caso do conceito de identidade (ALCOFF, 2006). Este artigo parte de reflexões das teorias feministas pós-coloniais dos anos 1980 para pensar nas possibilidades que os conceitos espaciais trouxeram para as ciências humanas, em especial à antropologia, de onde parto, que tem se utilizado da noção de territorialidade como uma importante alternativa aos essencialismos que rondam as discussões sobre gênero e sexualidade. Assim, as metáforas e conceitos espaciais tornaram-se uma alternativa a teorias que pensam corpos e identidades enquanto unidades acabadas e distintas (Rich, 2002; PERLONGHER, 1987; 1993), abrindo também novas possibilidades para a teoria antropológica contemporânea em suas renovações críticas dos conceitos de sociedade e cultura (INGOLD, 2005).

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O que não pode ficar além do tempo

Uma reviravolta na trama e a pergunta: não havia mais escravidão em 1865?

alem_do_tempo

Desde a publicação em 1986 da dissertação de mestrado de Ondina Fachel Leal, “A leitura social da novela das 8″, nós antropólogos não precisamos inventar desculpas por dedicar algumas horas do dia aos dramalhões e pastelões do horário nobre. Ainda que alguns de nós ainda insistam em dizer que só sabem algo “dessa novela que tá passando” porque passaram pela cozinha justo naquele horário, eu assumo: sempre gostei, assisti e falei de novela. Eu poderia dizer que é um importante campo de observação de como temas bastante caros a nossos estudos (gênero, sexualidade, família, modas, política) são colocados nesse contexto da mídia, um nebuloso emaranhado em que se confundem gostos populares, agências publicitárias, agenciamentos artísticos, entre outras intensidades. Mas o fato é que eu gosto mesmo.

Mas esse olhar não se exclui, ainda que a ficha demore a cair. Pois é o que aconteceu. Nessa semana, a novela que se passa no horário das 6 teve uma reviravolta em sua narrativa, em que seus personagens centrais ressurgem 150 anos depois, reencarnados em outras vidas (apesar de curiosamente manterem os mesmos nomes), repetindo ou não laços de parentesco daquele passado. Assim, personagens que eram patrão e empregado ressurgem como irmãos, cunhadas. Uma parte renasce no Rio de Janeiro outra se mantém na fictícia cidade de Bela Rosa, na mesma região gaúcha onde havia se desenrolado integralmente a primeira fase. Tratam-se de cidades localizadas próximas ao Parque Aparados da Serra, na divisa entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, a região serrana produtora de uvas e vinhos, economia que também faz a trama girar.

Mas quando nos damos conta de que se passaram 150 anos e que os personagens estão agora em 2015, chegamos então à conclusão de que antes a novela se passava em 1865. Vejamos: em 1865 não havia escravidão no Rio Grande do Sul? Não sou pesquisador do tema, mas parece grosseira o apagamento da escravidão se pensarmos que esse mesmo horário das 6 já foi palco de inúmeras obras – muitas delas em pleno regime ditatorial – que nunca ousaram falar do século XIX sem se referir à escravidão. Muitos dirão se tratar apenas de ficção, de uma licença poético-histórica de sua autora, Elizabeth Jhin, considerada uma das autoras mais criativas que apareceram nos últimos tempos, com novelas sobre espiritismo ou que levam a trama para além da racionalidade mais rasteira.

Mas acho que não é sobre isso que se trata essa ausência ou esse apagamento histórico. Quem assistia a primeira fase poderia pensar que se tratava no período de virada entre os séculos XIX e XX, logo posterior à abolição e à proclamação da República, uma vez que apresentava personagens que pareciam viver na saudade de um tempo das cortes que já não existiriam nesse período. Mas em 1865, o Império ainda se mantinha, e isso não fica evidenciado em nenhum momento. Além dos títulos de nobreza, conde e condessa, frequentemente utilizados, nenhuma outra referência ao Brasil Imperial.

Além disso, todos os empregados dos casarões ou são personagens supostamente de descendência italiana (apesar de não haver sotaque, há os nomes típicos como Gema, Anita) ou de origem negra, porém livres, sem que sua condição de ex-escravos ou descendentes de escravos seja alguma vez citada. Apenas quando dois personagens passam a ter uma relação amorosa inter-racial que vem à tona o tema do racismo, mas sem tocar na escravidão diretamente. “Pensa que um negro vai poder se deitar com uma branca e vai ficar por isso mesmo?”, diz o delegado enquanto prende o homem que teria agredido fisicamente um branco, filho da mulher com quem ele tem um relacionamento. Não fica claro se o homem está sendo preso porque bateu num branco ou porque estava se relacionando com uma mulher branca, ou se mesmo pela “arrogância” de ser um “negro liberto”.

De qualquer forma, incomoda essa ausência. Ainda mais se contextualizarmos essa trama em termos de sua exibição, no ano de 2015, um dos anos mais tristes – ou o primeiro de uma era ainda mais sinistra – em termos de opinião pública, debates políticos e discussões cada vez mais pobres sobre direitos humanos, exclusões, em que até mesmo a história recente chega a ser alvo de dúvidas. Se já há aqueles que estão relativizando a ditadura militar brasileira, não será estranho vermos fatos outros como escravidão, holocausto, a história das repressões à diversidade de gênero e sexualidade  e às minorias étnicas serem também alvo de revisões retrógradas e marcadas politicamente pelo pensamento tosco e sinistro dessa opinião pública.

A arte tem muitas licenças e limitar ou direcionar os discursos artísticos nunca será, não pode ser, uma alternativa desejável. Queria apenas nesse texto/desabafo situar esse simples recurso estilístico de uma novela das 6 como inspirador de discussões sobre os tempos obtusos atuais, em que não sabemos o que vem por aí, em que o retrocesso bate à nossa porta, em que anos e anos de lutas dos movimentos sociais pós-60 correm o risco de sumir nas trevas de uma religiosidade tacanha que ameaça o estado laico. Ainda que se trate de uma peça artística que quer apenas pensar o quanto ódios, invejas, ambições, amores e afetos outros podem resistir “além do tempo”, os séculos de escravidão que nos marcam a todos não pode ficar de fora. Não hoje.

Sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

A quem interessa manter a diferença? …sobre homens, mulheres e o Globo Repórter

O FATO
O Globo repórter desta sexta-feira representou não apenas retrocesso: ainda falando da diferenças entre homens e mulheres, coisa que fizeram è exaustão nas últimas décadas. Quem acompanha deve ter percebido que, nos últimos anos, o programa reveza uns poucos assuntos como comida nutritiva, bichinhos da África ou da Amazônia, e sempre parece se encontrar uma forma de falar nas diferenças entre homens e mulheres.

Antes de nos questionarmos se existe alguma diferença mesmo, que vá além uma “suposta biologia”, seria interessante pensar a que servem ou para quem servem essas diferenças. Quem se preocupa em mostrar cientificamente que homens e mulheres não são iguais? Por que é preciso estressar as diferenças? A quem elas interessam? Ou melhor: a quem incomoda a semelhança?

HIPÓTESE 1
Eu devo estar maluco, nada disso deve ser verdade. Ou ao menos estou doido de estar em casa numa sexta-feira à noite, vendo Rede Globo… decadência. Tá, vamos ao que interessa.

HIPÓTESE 2
Já não se faz mais bom jornalismo na televisão aberta como antigamente. E agora ficou mais fácil chover no molhado, pois falam de algo que parece não precisar explicar pois explica-se por si só: homens são diferentes de mulheres e mulheres são diferentes de homens. Quem atesta? A psiquiatria, sim, a psiquiatria.

Mostre pelas ruas várias fotos de diferentes expressões de sentimento e saberá que os homens não conseguem identificar a maioria, ao contrário das mulheres, craques em sentimento. Uma novidade, não é mesmo?

HIPÓTESE 3
É impressão minha ou antes se dizia que a TPM atingia grande parte das mulheres, porém não todas. Agora é “a TPM das mulheres”, todas têm, nem adianta fugir. E todos os homens e família inteiras sofrem com isso, é… Um poço de descontrole hormonal foi a forma como as mulheres foram apresentadas, sem que nenhum depoimento dissesse algo ao contrário. Que direito se arrogam em dispor das pessoas…

HIPÓTESE NEGADA
Não, não pode ter nada a ver com o fato de, pela primeira vez na história brasileira, uma mulher ter condições reais de se tornar presidente da República. Não, seria demais, quase uma teoria conspiratória. Eles não podem ser tão baixos… espero.

HIPÓTESE 4
Antigamente, as ciências físicas e naturais faziam de tudo para se distinguirem de outras ciências ou do senso comum. Na verdade, a tevê fazia essa ponte, entre esses dois universos. Hoje, não precisa mais da tevê: senso comum e ciência falam a mesma língua. Vitória do senso comum, mas não de qualquer senso comum. Uma certa baixeza parece ancorar as atitudes de quem tudo justifica com a biologia, condenando as mulheres a sempre serem “vítimas da natureza”, de uma condenação da qual não podem fugir e que agora pode explicar tudo. Vítimas e culpadas, ao mesmo tempo.

Não, não existem maridos ruins. Não existem crianças enlouquecedoras de qualquer mãe. Não existe casamento tão opressor que justifique um “saco cheio” por mês. Não, as mulheres verdadeiras não sofrem disso, pois elas possuem “instinto materno” que deve servir como antídoto para toda essa hipocrisia, não é verdade? As que não possuem devem mesmo estar loucas, com hormônios descontrolados. Que aprendam com os homens, todos carinhosos, amáveis, dispostos a ajudar, preocupados com os filhos, não são ciumentos (ao contrário de todas elas, segundo o Globo Repórter), pois tiveram a sorte de não ter uma biologia que é maior do que a sua “força”.

Ao que parece, são as mulheres que são diferentes dos homens e não o contrário. Eles é que são o tipo ideal a ser seguido. Mas que elas não tentem se igualar, para não dar mais trabalho aos psiquiatras. Aonde buscarão mais diferenças?

HIPÓTESE 5
Apesar de se basear em ideias do senso comum, tanto o Globo Repórter quanto os psiquiatras parecem partir de um mundo em que já não dá mais para saber quem é homem ou mulher, como se estivessem indiferenciados e, pior, como se isso fosse um problema. Há alguns séculos atrás, é bem provável que homens e mulheres não vivessem abismos sociais tão gigantescos, o que muitas vezes não é problematizado nas ciências humanas. Existem imensas lacunas na história que fez com que as mulheres fossem colocadas como “sexo” diferente: precisamos deixar urgentemente de entender isso como natural ou como os fatos da reprodução fossem uma explicação aceitável.

HIPÓTESE 6
Homens e mulheres são idealizações que foram construídas de formas diferentes em diversos períodos da história e continuam sendo refeitas. Mas existe uma forma hegemônica que vem se fortalecendo desde o século XVIII que é o da mulher esposa, mãe, doméstica e homem, provedor e público. Foi nessa época que os médicos, sim sempre eles, desenvolveram toda umascientia sexualis (Michel Foucault, A História da Sexualidade) , criando a diferença entre sexos e sexualidades, o que foi fundamental para as políticas de criação dos Estados-nações do Ocidente.

Criou-se um rol gigantesco de “patologias sexuais”, que incluíam o “homossexualismo”, que foi impondo às massas populacionais com métodos coercitivos e policiais. Naquele momento interessou dizer que homens e mulheres eram diferentes e que tinham corpos diferentes (Thomas Laqueur, A invenção do sexo ). Até então as diferenças eram de grau e não de tipo. Justificou-se toda uma série de pesquisas e uma das “descobertas” fundamentais do período foi a existência de hormônios sexuais – o que inclusive permitiu que se criasse terapias com hormônios de animais para “corrigir” masculinidades e feminilidades desviantes.

Será que saímos desse caminho? Acho que não… Acredito que talvez nunca cheguemos a um dia em que essas diferenças não sejam importantes, em que as pessoas não vão ser carimbadas na testa com uma identidade sexual prévia que parece justificar tudo, sem deixar saída. Pois não nos enganemos em pensar que se trata de uma simples diferença, já que é a partir dela, da forma como ela se constrói como verdade científica, que uma série de exclusões não param de proliferar. A construção da “homossexualidade” é apenas uma delas.

Existe um cinema gay?

Artigo publicado no Blogspot em 5 de janeiro de 2009

Amigos. Antes de dar início às minhas postagens, quando cada uma vai corresponder a um filme assistido durante esta pesquisa, gostaria de estreiar este blog expondo algumas reflexões sobre cinema, imagem, cultura gay, gênero e sexualidade que tenho elaborado nos últimos meses, desde que comecei meu doutorado.

A primeira delas é pensar se realmente existe um cinema gay e o que seria? Harvey Fierstein certa vez disse que uma peça de teatro gay deve ser uma peça que se apaixona por outra. A brincadeira sugere uma necessidade de refletirmos sobre rótulos e gêneros cinematográficos que, antes de representarem tipos de filme, parecem segregar as produções e negar outras possibilidades de conteúdos que estas películas nos oferecem.

Pensar na existência ou não de um cinema gay é também a forma que encontro para delimitar os filmes que vão fazer parte da minha pesquisa. Tenho cerca de 150 títulos de filmes que tenho selecionado por conterem menções à homossexualidade ou histórias em que as relações de mesmo sexo parecem ganhar relevância no enredo. Na maioria deles, a questão da sexualidade parece estar em primeiro plano, como uma descoberta pessoal, um relacionamento afetivo, um problema familiar, apontando quase sempre que viver fora dos limites da heterossexualidade obrigatória é quase sempre um desafio doloroso e penoso.

Raros são os filmes em que as relações afetivas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres são colocadas de forma que não sejam a problemática central do filme, permitindo que os protagonistas atuem em cima de outros assuntos. O melhor exemplo do tipo de produção a que estou me referindo é, na verdade, um seriado americano chamado Dante’s Cove . A história gira em torno de um velho hotel em que seus moradores (todos gays e lésbicas) se defrontam com as aparições de fantasmas que assombram a casa. Ou seja, no universo do filme “it’s ok to be gay”, não é o que faz girar a trama.

Mas não é o caso de outros títulos que parecem enfatizar demais as relações de mesmo sexo como problema. Mesmo filmes bem positivos que mostram os territórios gays, as vivências, os grupos de amigos, famílias que aceitam e cenas românticas e eróticas, parecem sempre encontrar fôlego em obstáculos e problemas construídos em torno da questão gay. Sempre há um possível namorado que não quer “assumir”, ou um pai conservador relutante, ou um amigo da escola que prefere fazer piadas. Em muitos filmes, a descoberta da (homo) sexualidade parece sempre vir acompanhada de perdas, de isolamento. Por mais que um novo mundo seja apresentado àquele que se “assume”, ele/a precisa deixar pra trás tudo aquilo que não condiz com a nova vida.

Mas talvez não seja à toa a construção das experiências homossexuais quase como um “desejo proibido”. Se, como já diziam nossas avós, “tudo o que é proibido é mais gostoso”, não causa surpresa que seja justamente através de histórias proibidas ou impossíveis de desejo e amor entre duas pessoas do “mesmo sexo” que estes filmes constroem-se como atraentes, excitáveis, desejáveis. Por mais que vivenciamos momentos de abertura e novas possibilidades eróticas e sentimentais e construamos espaços em que “it’s ok to be gay”, sempre nos causará mais interesse naquele beijo que pode ou não pode acontecer, naquele personagem heterossexual que de repente desejará alguém de seu sexo e uma série de percalços que parecem potencializar ainda mais o nosso tesão como espectador.

Bom, são só algumas reflexões. Nos próximos posts, apresentarei os filmes que estou assistindo.

Sempre que puder, vou colocar cenas/trechos de filmes que ilustrem minhas críticas. Hoje, para estreiar, vou deixar um que talvez não ilustre a resenha mas eu achei bonitinho e resolvi colocar. Encontrei ele no blog do João Loureiro ( http://filmesglbts.blogspot.com/ ) que eu sugiro que vocês visitem, pois é ótimo. O João tem postado sobre ótimos filmes GLBTs e ele nos oferece sempre os links para baixarmos filmes e legendas.