17/09 – O audiovisual e a cidade

Nas atividades de hoje do LAPA, demos um passo adiante em direção á produções audiovisuais de nosso projeto de extensão. Na quinta-feira da semana que vem, teremos nossa primeira incursão etnográfica audiovisual coletiva ao centro de Cuiabá. Nos encontramos às 14h na Praça Alencastro. Levem suas câmeras! A ideia é circularmos por aquela região em busca de leituras visuais da capital. Espaços, ruas, praças e paisagens serão nosso alvo nessa incursão.

Por conta disso, no encontro de hoje, falamos sobre a cidade e a relação com o audiovisual, ou seja, as possibilidades que essas relações, dos sujeitos com as urbanidades, oferecem aos cineastas e antropólogos. Uma das referências dessa temática é o antropólogo italiano Massimo Canevacci, autor de livros como A Cidade Polifônica e Fetichismos Visuais (ver abaixo). Nessa entrevista à TV Cultura, Canevacci  sintetiza algumas de suas teorizações sobre como as metrópoles são palcos para performances de sujeitos que se mesclam à cidade em suas vivências e como a comunicação urbana afeta os sujeitos com seus hibridismos entre o orgânico e o inorgânico.

Assistimos também o curta-metragem Praça Walt Disney (dir. Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira), um filme que é um ótimo exemplo para nossas produções. O filme se utiliza da cidade como uma sinfonia, enfocando essa praça na orla de Recife. Sem diálogos, o filme é uma leitura audiovisual do cotidiano que se desenrola em torno dessa praça, reconhecendo os movimentos que fazem parte desse cenário, em ângulos inusitados.

Outro bom exemplo dessas leituras audiovisuais, pode ser encontrada no filme Quanto dura o amor? (Roberto Moreira, BRA, 2009), um filme que se apropria da cidade de São Paulo como um personagem em sua narrativa. Os enquadramentos valorizam as relações entre corpos e prédios, nos remetendo aos fetichismos visuais, do orgânico e do inorgânico, conceituado por Canevacci. As imagens e o trailer abaixo nos dá uma noção dessas possibilidades.

QTODURA2

"No filme Quanto dura o amor? (dir.: Roberto Moreira, BRA, 2009), um dos enquadramentos mais recorrentes é o de seus personagens em conjunto com a paisagem da Avenida Paulista, mais especificamente no cruzamento desta com a Rua da Consolação. Seja na expressão de alegria da personagem central, em sua chegada à cidade no início do filme, seja numa das cenas finais em que essa mesma paisagem parece expressar a solidão dos personagens em suas histórias de amor mal sucedidas, as luzes, os carros, os sons da cidade formam com os corpos dos personagens uma relação de cumplicidade, muito mais que de oposição. O estar na cidade é um tornar-se, um perambular por suas trilhas ou fazer do próprio corpo um panorama (Canevacci, 2003, p. 30) em conjunto com suas paisagens." (In: SILVA, 2013 - ARTIGO COMPLETO ABAIXO)

O mesmo acontece em O Signo da Cidade (dir.: Carlos Alberto Riccelli, BRA, 2007), um filme em que São Paulo também é uma protagonista. Mas se em Quanto dura o amor? a cidade representa abertura e transformação, em O signo da cidade ela representa a solidão, o afastamento, a angústia, estereótipos bastante comuns sobre as metrópoles.

Já no documentário Bailão (Marcelo Caetano, BRA, 2009),  outra parte de São Paulo, a região do Arouche-República, é o ambiente por excelência dos personagens entrevistados, os frequentadores da casa noturna gay mais antiga da cidade. O filme tem um excelente dispositivo de produção, colocando as entrevistas em “voz off”, enquanto os entrevistados circulam por espaços caros às suas subjetividades.

Bailão from Marcelo Caetano on Vimeo.

"Bailão, curta-metragem destaque da 17ª edição do Mix Brasil – melhor direção e Prêmio Aquisição do Canal Brasil –, traz imagens do centro de São Paulo como um ambiente para seus entrevistados – frequentadores da casa noturna ABC Bailão, localizada na Rua Marquês de Itu, uma das mais tradicionais da “mancha” do centro antigo. São memórias que retomam os roteiros históricos dessa região: alguns dos frequentadores do lugar e entrevistados do documentário viveram a era de ouro da Cinelândia Paulistana, outros participaram do surgimento do primeiro grupo “gay” do Brasil, o Somos, em 1978. O enfoque do documentário é sobre a parcela mais cativa do lugar, formada por senhores de mais de 50 anos, o que faz deles vozes privilegiadas para falar de uma São Paulo “pré-tempos de visibilidade” que não era menos vibrante que a atual. Mesclados ao concreto da cidade, esses homens, mais uma vez, tornam-se cúmplices de ruas, praças, das divas do cinema numa vitrine, do vaievem de carros da Avenida Ipiranga, dos cinemões da São João – estes não são os lugares sobre os quais estes sujeitos viveram, mas são territórios que vivem junto dos sujeitos, suas histórias se confundem. O tipo de enquadramento mais recorrente neste documentário é a imagem de seus entrevistados circulando por esses locais do centro, enquanto a entrevista é apresentada em voz off." (idem)

BAILAO

Mas é Travileirinho (Rodrigo Averna, BRA-SP, 2010), um clipe musical que talvez nos apresente São Paulo da forma mais entrelaçado ao corpo de sua personagem central, a drag queen Dillah Dilluz. Percebam os cenários de sua performance, apresentados como extensões do corpo da artista.

A drag queen Dillah Dilluz que, na sua constituição como “estrela em ascensão”, faz-se moderna posando tanto com a parada gay da Paulista ao fundo, quanto com as ruas e prédios do centro antigo. O clipe da música Travileirinho foi vencedor do Show do Gongo de 2010, contando a história da personagem criada pelo ator Edivaldo Barreto. São Paulo mais do que um palco para a drag é um contorno de seu corpo, uma composição de sua imagem pessoal. É nesse sentido que as ruas e outras paisagens paulistanas não são meros palcos para os filmes se realizarem e para os sujeitos “encenarem” suas vivências. Num híbrido de “carne e pedra”, elas se tornam parte desses sujeitos, como se cada corpo fosse um espaço por onde a cidade flui. (idem)

TRAVILEIRINHO

Na Parada Gay de São Paulo, é comum vermos performances na Avenida Paulista, em que os sujeitos mesclam a cidade a seus corpos.

CARNE-PEDRA

Na Parada Gay de São Paulo, não são raros os momentos em que as pessoas fazem do concreto da Paulista, em perspectiva, uma paisagem de suas fotografias e, do próprio asfalto, um complemento para seus corpos. A Avenida Paulista não é um simples cenário para a realização da parada. A luta por mantê-la neste lugar, em contraposição às “sugestões” de transferi-la para o Parque do Ibirapuera, não é gratuita e tem como justificativa o próprio significado dessa região para a cidade, o seu “centro moderno”. Contudo, não se trata apenas disso, uma vez que a parada une os “dois centros” da cidade: da Avenida Paulista à Praça da República, através da Rua da Consolação, o trajeto oficial da Parada produz um atravessamento simbólico que se tornaria impossível no espaço de um parque. Mais do que um entrelaçamento com os corpos, a cidade é também um personagem dessas narrativas, seja num filme, numa parada gay, nas trajetórias dos sujeitos que circulam nas “manchas”, numa pesquisa antropológica e no devir do antropólogo. São experiências que articulam práticas de espaço e práticas de imagem, performances que constituem territórios. (idem)

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Bibliografia básica

SILVA, Marcos Aurélio. A cidade de São Paulo e os territórios do desejo: uma etnografia do Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual. Revista Eco-Pós, 16 (3). Rio de Janeiro: UFRJ, 2013. p. 19-43. baixar

CANEVACCI, Massimo. 2009. Fetichismos Visuais. São Paulo: Brasiliense.baixar

RIBEIRO, Ana Paula Alves. Múltiplas Cidades: Representações do Rio de Janeiro no cinema e em outras mídias. Recine, 10 (10). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2013. baixar

DEVOS, Rafael V. 2007. “Filmes de memória” como hipertextos. Revista Chilena de Antropología Visual, 10. Santiago. pp. 137-162.baixar

SILVA, M. A. 2012. Territórios do desejo: Performance, Territorialidade e Cinema no Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Florianópolis: PPGAS/UFSC.baixar

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