Existe um cinema gay?

Artigo publicado no Blogspot em 5 de janeiro de 2009

Amigos. Antes de dar início às minhas postagens, quando cada uma vai corresponder a um filme assistido durante esta pesquisa, gostaria de estreiar este blog expondo algumas reflexões sobre cinema, imagem, cultura gay, gênero e sexualidade que tenho elaborado nos últimos meses, desde que comecei meu doutorado.

A primeira delas é pensar se realmente existe um cinema gay e o que seria? Harvey Fierstein certa vez disse que uma peça de teatro gay deve ser uma peça que se apaixona por outra. A brincadeira sugere uma necessidade de refletirmos sobre rótulos e gêneros cinematográficos que, antes de representarem tipos de filme, parecem segregar as produções e negar outras possibilidades de conteúdos que estas películas nos oferecem.

Pensar na existência ou não de um cinema gay é também a forma que encontro para delimitar os filmes que vão fazer parte da minha pesquisa. Tenho cerca de 150 títulos de filmes que tenho selecionado por conterem menções à homossexualidade ou histórias em que as relações de mesmo sexo parecem ganhar relevância no enredo. Na maioria deles, a questão da sexualidade parece estar em primeiro plano, como uma descoberta pessoal, um relacionamento afetivo, um problema familiar, apontando quase sempre que viver fora dos limites da heterossexualidade obrigatória é quase sempre um desafio doloroso e penoso.

Raros são os filmes em que as relações afetivas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres são colocadas de forma que não sejam a problemática central do filme, permitindo que os protagonistas atuem em cima de outros assuntos. O melhor exemplo do tipo de produção a que estou me referindo é, na verdade, um seriado americano chamado Dante’s Cove . A história gira em torno de um velho hotel em que seus moradores (todos gays e lésbicas) se defrontam com as aparições de fantasmas que assombram a casa. Ou seja, no universo do filme “it’s ok to be gay”, não é o que faz girar a trama.

Mas não é o caso de outros títulos que parecem enfatizar demais as relações de mesmo sexo como problema. Mesmo filmes bem positivos que mostram os territórios gays, as vivências, os grupos de amigos, famílias que aceitam e cenas românticas e eróticas, parecem sempre encontrar fôlego em obstáculos e problemas construídos em torno da questão gay. Sempre há um possível namorado que não quer “assumir”, ou um pai conservador relutante, ou um amigo da escola que prefere fazer piadas. Em muitos filmes, a descoberta da (homo) sexualidade parece sempre vir acompanhada de perdas, de isolamento. Por mais que um novo mundo seja apresentado àquele que se “assume”, ele/a precisa deixar pra trás tudo aquilo que não condiz com a nova vida.

Mas talvez não seja à toa a construção das experiências homossexuais quase como um “desejo proibido”. Se, como já diziam nossas avós, “tudo o que é proibido é mais gostoso”, não causa surpresa que seja justamente através de histórias proibidas ou impossíveis de desejo e amor entre duas pessoas do “mesmo sexo” que estes filmes constroem-se como atraentes, excitáveis, desejáveis. Por mais que vivenciamos momentos de abertura e novas possibilidades eróticas e sentimentais e construamos espaços em que “it’s ok to be gay”, sempre nos causará mais interesse naquele beijo que pode ou não pode acontecer, naquele personagem heterossexual que de repente desejará alguém de seu sexo e uma série de percalços que parecem potencializar ainda mais o nosso tesão como espectador.

Bom, são só algumas reflexões. Nos próximos posts, apresentarei os filmes que estou assistindo.

Sempre que puder, vou colocar cenas/trechos de filmes que ilustrem minhas críticas. Hoje, para estreiar, vou deixar um que talvez não ilustre a resenha mas eu achei bonitinho e resolvi colocar. Encontrei ele no blog do João Loureiro ( http://filmesglbts.blogspot.com/ ) que eu sugiro que vocês visitem, pois é ótimo. O João tem postado sobre ótimos filmes GLBTs e ele nos oferece sempre os links para baixarmos filmes e legendas.